Livros

Published on fevereiro 11th, 2015 | by Fernanda Correia

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Vamos falar de 50 Tons de Cinza?

Já que o filme chega aos cinemas, decidi parar de adiar e finalmente escrever sobre 50 Tons de Cinza.

Se você esteve num monastério, numa caverna ou debaixo da pedra, a trilogia erótica 50 Tons de cinza foi escrita por uma dona de casa inglesa, inspirada pela série Crepúsculo. Quem acompanha algo (séries de tv, livros e até filmes) sabe que existe todo um mundo voltado para as fanfics, histórias escritas por fãs de algum desses temas. Tem de tudo. Até Dallas tem seu fandom. Foi aí que E.L. James começou, colocando um pouco de sadomasoquismo na saga de vampiros e lobisomens.

Fez muito sucesso na internet (a história foi postada no fanfiction.net, que tem muitas outras fanfics) e acabou sendo comprada por uma editora para transformar aquilo em livro. E aqui começa a minha birra, tanto com quem critica quanto com os livros. Eu li o primeiro volume em um final de semana —realmente é impossível largar—, o segundo eu me arrastei por um mês e o terceiro nem cheguei na metade.

poster anastasia mordidinha

Quem odeia o livro usa, quase sempre, o argumento de que é mal escrito. É, mas não é nenhum absurdo. Tem muita fanfic por aí (inclusive de 50 Tons) que é mais bem escrita que o original, mas a escrita dela tá ali na média, feita sem compromisso. Mas isso não é culpa da autora. Ela escreveu para a internet, alguém foi lá e resolveu transformar em livro. O único trabalho que a editora teve foi falar: minha filha, tira os vampiros e lobisomens pra não dar processo e tá ótimo. Eu acho que eles nem leram. Tem cenas que são impossíveis de não reconhecer de Crepúsculo, tem situações que não casam, isso é trabalho do editor: apontar e corrigir. Pra ficar no tema, procura os originais da Stephanie Meyer, eles são bem diferentes da edição.

Também me irrito bastante quando vejo entre os argumentos de quem defende dizer que Christian Grey é incrível por N motivos, entre eles porque ele é rico. Amiga, assim não dá pra te defender. Ser rico não é qualidade, é circunstância. Não vamos esquecer o fato de que ele usa isso para conseguir o que quer. O sujeito é stalker, por favor! Se um alguém te persegue mesmo depois que você diz não obrigada, ou aparece no seu trabalho que por sinal você sequer contou pra ele, não interessa se ele tem 10 dinheiros ou 10 bilhões de dinheiros. Ele é maluco, e só. Sem contar as outras exigências e a necessidade por controle.

Anastacia. Inocente, desajeitada, virgem. Não tem grandes problemas nisso, nem acho ela um personagem tão irreal. Uma mocinha de romance. Meu problema com ela é por ela ser tonta. O sujeito (já seminu) se ajoelha na frente dela e começa a tirar a roupa e ela se pergunta o que ele vai fazer. Jura? Você era amish esse tempo todo, filha? Onde você passou a adolescência, num convento? E eu nem vou entrar nas conversas com a ~deusa interior~ que me fizeram querer dar com o livro na cabeça dela.

anastacia

Fora a qualidade — e vou abrir um parênteses grande: qualidade que é relativa, sempre. Se eu não gosto de algo não significa que seja ruim, só que ele não é bom para mim. Se a autora se propôs a ganhar o Nobel de literatura, o livro é realmente péssimo, mas ela escreveu uma fanfic na internet. Ou seja, tá ótimo —, que é sempre questionada e usada pra brigar contra o livro, o sadomasoquismo também é alvo.

Tem a galera que achou ótimo, tem quem se libertou, tem quem achou um absurdo e tem quem nem sabe porque tão brigando por isso. Inclusive muita gente foi procurar a prática na vida real e se assustou com o que viu. Lembra da história da edição preguiçosa? Pois é, porque não mandaram a filha pesquisar sobre esse universo? Se você assiste um anime (dos leves, sem ser hentai) você já vê coisa mais pesada do que aquilo.

Não sou psicóloga, mas acho meio bizarro ela tratar a tara do cara como um problema, algo que só existe por causa do trauma. Seria uma discussão muito mais saudável se fosse tratada com mais naturalidade, algo que é da personalidade dele e pronto. Enquanto que as outras manias são mostradas como um charme dele. Sério, ele gostar de dar uns tapas nem é o mais bizarro da personalidade dele.

tanquinho mr grey

Por outro lado, muita gente que sequer falava de sexo em voz alta está discutindo fantasias, apimentando relações, etc. Se fazer sexo é saudável, tratar isso como algo natural também é. Porque olha, vai pegar uma Sabrina, Julia ou qualquer outro livro de banca de jornal. É a mesma coisa, mas ninguém comenta, todo mundo lê escondido. Inclusive muitos livros foram publicados por conta disso. A gente aqui recomenda Juliette Society.

Ah, mas o livro é machista! É, mas quem critica pega nos pontos errados. O problema não é os tapas, as chicotadas e toda a prática sadomasoquista. É violência contra a mulher, mas não é física. O problema é a pressão psicológica que ele fez pra conseguir isso, e a necessidade de controlar cada detalhe da vida dela. Ao invés de tratar tudo como uma escolha dela, uma vontade dela, um desejo dos dois, algo consentido. Sem esquecer que a única função dela é satisfazer ele, o que de novo não seria problema se fosse o que ela quisesse, o que ela desejasse, mas é imposto.

O fato dele ser bonitão, charmoso, insira aqui a qualidade que você quer ressaltar, também poderia ser melhor aproveitado para outra situação: a ameaça não é o cara esquisito, com cara de sujo que você encontra na rua. É o amigo, o vizinho, o primo, o cara próximo de quem você nunca vai desconfiar. A maioria dos abusos ocorre dentro de casa.

Cara, é um romance! Não tem que ter tudo isso nele! Não tem mesmo, nem acho que ela se propôs a isso quando escreveu. Apenas foi uma oportunidade perdida para um tema que ainda é tabu para muita gente. E polêmicas à parte, o que me parece é que a razão do sucesso não é o romance, não é o príncipe encantado, não é o sadomasoquismo, não é o desejo reprimido da mulher, mas uma fantasia muito comum: transformar o bad boy naquele homem ideal que você quer.

Com tudo isso, ainda é só um livro que, como tudo na vida, você é livre para gostar ou não. Mas não dá pra exigir que ele seja ignorado, que seja queimado, muito menos ser colocado em algum cânone. O que não dá pra negar é que, para muitas leitoras, foi um primeiro passo para deixar de lado preconceitos e finalmente ver a mulher como participante ativo do sexo, uma pessoa com vontades e desejos, conhecer suas fantasias, se permitir ficar excitada e desejar e se sentir livre para discutir isso em outros ambientes que não aos sussurros com as amigas mais próximas.

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About the Author

Tem mais séries e livros para ver e ler do que tempo hábil. Sonha em encontrar o Doctor só para usar a Tardis e zerar a sua pilha. Encontrou o sentindo da vida quando assinou o Netflix.



4 Responses to Vamos falar de 50 Tons de Cinza?

  1. Jamille says:

    Amei o texto, Fe!
    Eu tinha lido um texto falando mal do filme porque a história é rasa. Gente, mas se o filme é baseado num livro de história rasa, queriam o quê? E que as cenas de sexo são longas e até constrangedoras!! dã…
    Se a pessoa sabe qual a proposta do filme/livro vê quem quer e não saia reclamando que esperava mais. Nunca foi prometido um filme de arte!

    • Fernanda Correia says:

      Pois é! A galera tá lendo/assistindo pra odiar. Não dá pra tirar leite de pedra e a autora não precisa ser queimada viva por escrever um livro mais ou menos…

  2. Fernando Cunha says:

    Nanda. Que texto bom!
    Sabe que tenho uma fila de livros para ler (muitos deles, você me deu) e este não estava incluído na minha lista.
    Falou-se muito dele e eu achava que seria uma literatura comercial demais, mas agora, lendo sua crítica diferenciada, me dá vontade de ler.
    Parabéns pelo seu dom de escrever!
    Bejo do tio

  3. Francisco Aniceto says:

    Priminha,
    Muito show o seu texto, você explica simples e que muitos complicam.
    Parabéns.

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