Posted on: 27 de maio de 2020 Posted by: Will Comments: 0

Tive um pouco de problemas, confesso, para assistir à “Todas as Mulheres do Mundo”, série da Globoplay que estreou recentemente.

Fui incentivado a ver por causa de uma amiga que estava se identificando muito com o protagonista, seus casos de amor, o texto e a paixão pelas mulheres.

Acho que já no início comecei a problematizar a escolha de se fazer mais uma série sobre um cara hétero, branco e rico.

Um pouco antes de assistir ao sétimo episódio lembro de ter observado comigo mesmo como faltava diversidade à série. E eis que no episódio em questão, “Gilda”, surge quase que por obrigação a primeira mulher negra com quem o protagonista se relaciona amorosamente.

O cachorrinho Oliveira é uma graça

Mas eu já tinha notado a falta de mulheres masculinas, por exemplo, ou gordas, e não me sinto confortável para colocar a Martha Nowill neste rótulo. Inclusive, a Laura, sua personagem, é uma das melhores coisas da série e a Martha é uma excelente atriz.

Aliás, o Cabral do Matheus Nachtergaele é outro ótimo ingrediente da história que orbita em torno do Paulo, vivido pelo Emilio Dantas. E eu quase poderia dizer que o Emilio praticamente nasceu para esse papel.

A direção e a direção de arte são ótimas. O texto é leve e bom. Há frases boas e marcantes sobre amor e relacionamentos. Algumas eventualmente beiram o clichê. Inspirada na obra do Domingos de Oliveira, da qual, admito, conheço nada, toda a produção revela um cuidado para não deixar o mocinho cair em estereótipos tão machistas.

Ajuda o Emilio ser carismático e transitar bem entre um tipo sedutor e o cafajeste honesto, daqueles que falam absurdos de forma sincera e natural e logo em seguida se mostram dispostos a ouvir, aprender com o erro e se desconstruir. Fica difícil não se apegar.

Tem uma cena de tapa muito boa neste episódio com a Lilia Cabral

Tem um tipo de amor e lifestyle que é vendido na série. Talvez tenha sido esse o meu incômodo. Isso e o ficar vendo uma história tão somente hétero e bem comportada do ponto de vista do erotismo, digamos assim.

Terminei o último episódio no sábado e me lembrei de uma definição que circula em algumas oficinas literárias que é a do conto ser como o boxe, que ganha o leitor como num nocaute, enquanto o romance seria uma competição na qual a vitória se dá por pontos.

Com tanta flutuação de ritmo e qualidade dramática entre um episódio e outro e às vezes até no mesmo episódio, “Todas as Mulheres do Mundo” está mais para romance do que para conto.

No final, o saldo é positivo. Vai ver por isso que minha amiga Patricia Kogut e meu amigo Mauricio Stycer gostaram bastante e indicaram a série como um bom refresco para estes tempos de pandemia. Para quem estiver disposta, vale.

Percebi que não falo muito no texto da Maria Alice, vivida pela Sophie Charlotte; personagem é legal, mas cumpre mais função de “musa”

Como num livro que é bom, mas não é tudo isso, até rola um apego com os personagens e um detalhe ou outro fica te habitando por um tempo. No geral, o conjunto da obra é satisfatório, mas chegar ao fim dá um certo alívio, porque há coisas que podem ser melhores na estante, ou nos cardápios dos streamings, que seja.

PS.: Até o próximo dia 31 de maio, o filme “Todas as Mulheres do Mundo”, de 1966 e que inspirou a série, além de outros trabalhos do Domingos de Oliveira estarão disponíveis no Inffinito Festival. Para assistir basta um breve cadastro. Ainda dá tempo. Bora?

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