Posted on: 21 de maio de 2020 Posted by: Fernanda Correia Comments: 0

Talvez por só estar disponível, oficialmente, na plataforma de streming da Apple, a Apple TV+, o seriado The Morning Show parece ter passado batido. Ainda que tenha sido nomeado a três globos de ouro, incluindo melhor série dramática.

Quando a empresa anunciou sua incursão pela produção audiovisual e pelo serviço de streaming em setembro de 2019, um dos grandes anúncios foi justamente The Morning Show, um seriado dramático estrelado por Steve Carell, Jennifer Aniston e Reese Witherspoon. 

O trio, que é conhecido por seus papéis em comédias e filmes leves, parecia uma escolha estranha para uma série de drama, mas não poderiam haver escolhas melhores. Principalmente porque, talvez por memória afetiva, é quase natural nos vermos torcendo pelos personagens dos três em um primeiro momento, mas ninguém nesse show tem a moral acima do duvidoso.

Assim como o livro Ela disse, o tema do seriado é a recente sequência de denúncias dos abusos e ambientes tóxicos, principalmente na indústria do entretenimento e em empresas de comunicação. Em um dos episódios, o movimento #MeToo é mencionado e tratado com escárnio por alguns dos personagens.

Steve Carell e Jennifer Aniston interpretam Mitch Kessler e Alex Levy, os apresentadores do programa que dá título ao seriado. O programa de grande sucesso e audiência é o típico matutino norte-americano, um jornalístico leve, que traz as primeiras notícias do dia, mas também assuntos divertidos para quem está começando o dia.

Logo no primeiro episódio, sabemos que Mitch está sendo demitido porque o The New York Times, seguindo a série de reportagens que culminaram com a prisão de Harvey Weinstein, revelaram que Mitch era um predador sexual e a redação do programa um parque de diversões com anuência da direção.

Alex vê a oportunidade de transformar sua carreira, finalmente ganhando o protagonismo do programa que apresenta. Mas ela está prestes a ser demitida pela emissora, que pretende utilizar como desculpa uma suposta cumplicidade com o comportamento predatório do seu co-âncora. No mesmo dia em que descobre o plano orquestrado para a sua demissão, Alex entrevistou uma jornalista (Witherspoon) de um canal local que viralizou por surtar ao cobrir um protesto em uma mina de carvão.

Aproveitando um momento de atenção pública, anuncia a novata Bradley Jackson como substituta e nova apresentadora do programa. Resta ao canal e toda a equipe fazer isso funcionar, uma vez que já havia sido anunciado ao público e à imprensa. Segue-se então uma série de tramas que mostram os bastidores do canal, da produção do telejornal e dos relacionamentos pessoais dentro desse ambiente e fora dele.

Jogos de poder e chantagem estão por toda a parte e até quem parecia não ter nenhum esqueleto no armário, tem algo a esconder. Tudo isso ao longo de dez episódios que culminam em um season finale de uma hora de tirar o fôlego. É televisão e narrativa no seu melhor. No início você está querendo arremessar algo em um personagem e, ao final, você quer chorar abraçado com ele no bar.

Com atuações impressionantes dos três protagonistas, mas um destaque especial a Steve Carrell que está impressionante no papel do cínico Mitchel. Carrell já havia mostrado seu talento em outros papéis dramáticos como em Pequena Miss Sunshine, mas desta vez ele se supera.

A série ainda ganha pontos ao mostrar detalhes além daqueles restritos ao ambiente da redação, como o dia da produção e como apresentar notícias enquanto um furacão acontece dentro da própria empresa, mas indo além, até a direção e os altos executivos. Mostra como uma mesma história pode ter vários lados, dependendo do ângulo que se escolhe, e como cada um procura o ângulo pessoal melhor da própria narrativa. Como o ambiente de trabalho tóxico geralmente começa do alto escalão e vai se estendendo por todos os níveis com diferentes consequências, de acordo com seu cargo e popularidade.

Mas também como o medo e o individualismo é a principal arma de quem se beneficia com este tipo de situação. Como uma mulher pode se sentir confortável em um ambiente prejudicial a outras mulheres, uma vez que ela é um dos caras, mas para os outros ela ainda é vista como uma invasora. Como uma posição de poder, por menor que seja, já faz alguém acreditar que é responsável por decidir de mantém ou descarta outra pessoa. E como, no fim, as pessoas acabam funcionando melhor quando unidas.

No entanto, já conhecemos as personalidades e os dilemas morais desses personagens. Uma reviravolta foi apresentada, mas eles poderão continuar contando uns com os outros, já que eles obviamente não são confiáveis? Aguardemos, ansiosamente, a segunda temporada.

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