Séries

Published on junho 4th, 2019 | by Will

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Special

!Atenção, esse texto contém spoilers!

Se você assumir que a capacidade de ser babaca é uma condição inerente do ser humano, talvez isso faça com que você não se decepcione muito com as pessoas, de um modo geral.

Afinal, a babaquice está aí presente na história da humanidade desde que o mundo é mundo e exercê-la é uma possibilidade que independe de qual marcador social você carrega.

Isto posto, “Special”, série fofíssima da Netflix, traz muitos grandes trunfos no quesito representatividade. E na minha humilde opinião que ninguém pediu, o maior deles é mostrar as contradições e humanidade do personagem principal, ainda que para isso seja preciso dar uma carregada na tinta às vezes.

O que eu tô querendo dizer? Bom, vamos lá. A série acompanha um momento da vida de Ryan Hayes, um cara com uma leve paralisia cerebral e que é gay. Um novo estágio em uma espécie de Buzzfeed é o que tira ele de sua rotina até então. Antes de assumir o cargo ele sofre um pequeno acidente de carro e sustenta na firma que foi isso que o deixou com parte da mobilidade comprometida.

Lá ele faz amizade com a Kim, uma mulher muito maravilhosa, que dá umas lições de vida real. Principalmente quando o personagem se deslumbra por aceitação social e foca mais em tentar parecer ser do que ser de verdade.

A Kim é uma das melhores personagens da série!

Como não poderia deixar de ser, “Special” fala muito sobre aparência, já que ela é bem cara na comunidade LGBT. Quanto mais dentro de alguns padrões você tiver, melhor.

Logo na primeira cena, o fisioterapeuta de Ryan fala sobre ele fazer sucesso no Grindr. E o Grindr dele é como o de muitos de nós. Uma lista interminável de olás não respondidos.

No segundo episódio rola um beijo babado e uma rejeição logo em seguida. Ponto. São 8 episódios de 15 minutos. Eu tenho amado esses formatos. Aí a série te pega pela empatia. Quem nunca passou por uma rejeição, não é mesmo?

Mas, tem um ponto de virada importante aí. Quando ele sai da casa da mãe e ela ganha um pouco mais de tempo de tela.

Porque Ryan é muito babaca com a mãe em vários momentos. No episódio da festa em que ninguém comparece. O show que ele dá quando descobre que ela tá namorando e o season finale com todo o elã do aniversário.

É puta merda atrás de puta merda. E é nesse ponto que eu queria chegar.

Com todo o problema que é a pouca falta de representatividade nos produtos culturais de modo geral, o criador da série consegue dar passos importantes neste sentido ao construir um personagem com quem não apenas nos identificamos ou olhamos com olhares condescendentes para que pareçamos mais cools aos olhos dos outros, mas que possamos também e inclusive odiar.

É por exemplo a história de personagens gays vilões ou moralmente ambíguos que marcam presença nas séries da Shonda Rhymes.

Se é para representar que se faça direito, apontando as várias complexidades de se ser e se estar vivendo aqui neste planetinha. A importância de “Special” é que ela vai além de colocar a presença ali. No caso, a presença é dotada de camadas que deixa tudo mais humano.

A mãe que só toma na tarraqueta

Apesar de ser a primeira vez que o Ryan O’Connell (que tem paralisia cerebral e é gay) estrela uma série, ele é experiente nesse mundo. Além de criar, protagonizar e escrever os roteiros de “Special” ele já foi roteirista de “Will & Grace” e “Awkward“, que a gente ama.

Enfim. “Special” é tão boa que de repente você se vê concordando com o homem branco hétero do rolê, sabe. Pelamor. Vale à pena.

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About the Author

Tem mais livros que amigos, mas tem os melhores amigos do mundo e troca qualquer série para estar com eles sempre que possível



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