Posted on: 31 de agosto de 2020 Posted by: Fernanda Correia Comments: 0

Antes de mais nada, gostaria de começar dizendo que o livro, que narra a história do livro Crepúsculo pelo ponto de vista do vampiro Edward, é um livro feito para as fãs, aquelas que caíram perdidamente apaixonadas pelo romance proibido entre predador e presa. Queria deixar claro porque se você não gosta, tem sérias restrições à saga, aos filmes, aos atores, a vampiros que brilham no sol, basta passar bem longe do livro, ele não foi feito pra você (o que também tá tudo bem, pois como disse o Tiago: “a gente gosta do que a gente gosta”).

Stephenie Meyer tem plena consciência de que está entregando um livro para um público cativo. Não a toa, a dedicatória do livro é esta:

Dedico este livro a todos os leitores que nos últimos quinze anos se tornaram parte tão importante da minha vida. Quando nos conhecemos, muitos de vocês eram adolescentes com olhares encantadores e radiantes, cheios de sonhos para o futuro. Espero que nesses anos que se passaram vocês tenham concretizado seus sonhos e que torná-los realidade tenha sido ainda melhor do que vocês imaginavam.

Antes de seguirmos em frente, uma breve explicação. Sol da meia-noite surgiu como um exercício de escrita de Meyer enquanto ela produzia a saga. É muito comum escritores produzirem trechos (ou só imaginá-los) que não entrarão no livro finalizado para que ele tenha uma perspectiva mais ampla da história e de seus personagens, fazendo com que, no final, tudo tenha mais coerência.

Quando o primeiro filme das adaptações cinematográficas estava sendo produzido, a autora emprestou uma cópia que abrangia os 12 primeiros capítulos do livro pelo ponto de vista de Edward para Robert Pattinson, assim ele poderia construir o personagem de acordo com o que ela havia imaginado e o ajudava a compreender as atitudes do vampiro. Mas o manuscrito foi roubado e vazado online, o que deixou Stephenie extremamente frustrada, fazendo com que ela mesma liberasse o material em seu site e prometesse nunca mais tocar na história. Justamente por isso o grande espanto de finalmente termos o livro publicado.

Confesso que eu temia pelo que encontraria. Há alguns anos, comemorando o aniversário de publicação de Crepúsculo, Meyer publicou Vida e Morte, uma versão de gênero invertido da história original. Digamos que desnecessário é o mínimo que se pode dizer sobre aquele texto.

Sol da meia-noite, por sua vez, é tudo o que ela prometeu e um pouco mais. Os doze primeiros capítulos são muito próximos do que estava no manuscrito vazado, com apenas algumas edições e complementos, talvez porque o texto acabara muito conhecido. Depois disso é uma grande diversão ver a história contada pelo ponto de vista de diversos personagens, uma vez que Edward pode ler mentes, então sabemos exatamente o que o outro personagem pensou e porque ele reagiu de tal forma em uma situação. Com isso acabamos conhecendo melhor os outros Cullen e a dinâmica dos relacionamentos entre eles e, claro, Alice e Emmet conseguem ser ainda mais maravilhosos.

O fato de Crepúsculo ser narrado em primeira pessoa por Bella às vezes acaba esquecido e acabamos pensando que a personagem é realmente sem graça, porque é assim que ela se vê. No entanto, a grande maioria dos leitores tinha (ou com certeza já teve) a idade da personagem e, bom, ninguém era um poço de autoestima, não é mesmo?

A partir disso, podemos entender por que Edward é tão cativante. Como ele não é capaz de ler a mente de Bella, ele precisa prestar atenção nela, ouvir o que ela diz e como ela reage a ele e aos outros em sua volta. Ele passa a ler nas entrelinhas e perceber coisas que nem ela mesmo percebe como qualidades, como ser uma pessoa atenciosa e altruísta.

No tapete vermelho do Emmy de 2020, Phoebe Waller-Bridge, a criadora e protagonista de Fleabag (genial, assistam), respondeu à pergunta sobre os motivos de todos os espectadores de sua série estarem apaixonados pelo personagem do Padre tanto quanto Fleabag com uma afirmação muito simples: ele não é lindo, ele só escuta ela. A mesma situação pode ser aplicada aqui, o charme final do vampiro é esse, ele escuta a Bella. E seu desejo pelo sangue da garota mescla-se com o desejo sexual também, afinal ele se apaixona, mas ele se contém pelo bem dela, fica difícil não se encantar por alguém que não toma tudo o que quer só porque ele pode, mas leva em consideração o que pode acontecer com a pessoa que ama.

Também é divertido ver como uma personalidade de um adolescente, congelada no tempo por ser um vampiro, mistura-se com a mente de alguém centenário, o que acaba gerando comportamentos problemáticos (ficar assistindo alguém dormir sem o consentimento não é legal, ainda mais quando você deseja esse alguém). Da mesma forma, a paixão avassaladora mesclada com a sede irresistível produz cenas muito divertidas.

Meyer sabe o potencial de influência de sua obra. Por conta de O morro dos ventos uivantes e as obras de Jane Austen serem constantemente lidas pela protagonista, algumas edições destes textos foram publicadas fazendo referências à saga para que os leitores encontrassem os livros. Muitos foram apresentados a tais textos justamente por terem sido mencionados, então é possível encontrar referências a muitas coisas, de livros a álbuns.

O livro tem quase 800 páginas porque, além de ter as leituras mentais feitas por Edward, apresenta todo o drama interno do personagem. Ele está conciliado com a sua situação de vampiro, mas nunca se entendeu muito bem. Lembra, e muito, os vampiros com crises existenciais de Anne Rice. Então tudo é repensado diversas vezes por ele e debatido internamente, uma vez que a solução mais simples para sua situação é transformá-la, mas como torna-la algo que ele mesmo odeia pode ser justo com alguém que ele enxerga como verdadeiramente puro.

Há um ou dois capítulos que aparentam ser um pouco exagerados e desnecessários, geralmente relacionados à paixão da autora por carros e perseguições em alta velocidade. Mas eles ocorrem em momentos de tensão, então acabam passando rápido porque você quer chegar ao final. E quando finalmente chegar, o gosto de quero mais é inevitável, assim como Edward não consegue resistir a Bella.

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