Posted on: 7 de janeiro de 2022 Posted by: Raira Comments: 0

Mais um ano acabou, e dezembro foi uma loucura, mas como de costume vim deixar aqui a minha lista dos dez melhores livros lidos.

Foi um ano com um número até que baixo, 29 incluindo quatro quadrinhos, mas de livros densos e calhamaços. Considerando tudo, inclusive o cenário turbulento em que vivemos, e que o importante é a qualidade das leituras e não a quantidade, creio ter sido completamente satisfatório.

Mas, vamos à lista. Lembrando que vou pela ordem de leitura, não de importância e/ou qualidade.

Cartas, Caio Fernando Abreu

Esse foi o primeiro livro lido do ano, e eu lembro de pensar “esse vai pra lista de melhores”. Tínhamos lido o “Contos Completos” durante 2020, e foi uma experiência maravilhosa; decidi então mergulhar na leitura das cartas. Com certeza esse virou não só um dos melhores do ano, mas da vida, livro de cabeceira. Dividido em duas partes, o livro destaca a correspondência do autor desde o início de sua carreira até praticamente o fim de sua vida; reúne missivas para familiares e amigos, entre eles nomes como Hilda Hilst e João Silvério Trevisan.  Uma obra que vale a pena ser lida, e que com certeza de alguma forma transformou algo em mim.

Torto Arado, Itamar Vieira Júnior

Lançado em 2019, esse livro chegou a seu auge em meados de 2020 e eu que não sou de acompanhar as tendências, aceitei a recomendação do Will, e só posso agradecer e dizer que valeu muito a pena. O livro conta a história das irmãs Bibiana e Belonísia da infância à vida adulta, e por meio dessa narrativa fala de Brasil, das condições ferozes de vida das mulheres em uma sociedade patriarcal e escravocrata; um livro forte e belo, que me tocou de uma forma muito especial e profunda.

De Repente, uma Batida na Porta, Etgar Keret

Uma das coisas que eu mais amo em fazer matérias de literatura na faculdade é poder entrar em contato com obras que dificilmente chegariam até mim de outra forma. Que delícia de livro. Contos curtos, divertidos e leves, mas que contém mais significados do que aparentam. O autor, considerado um dos principais nomes da literatura israelense contemporânea e que também é cineasta, consegue construir várias camadas de sentido em textos que misturam literatura fantástica e imaginário coletivo. Vale a pena conhecer.

Selected Poems of Langston Hughes

 Na pegada de ler mais poesia, resgatei esse livro que estava no Kindle há um tempo.   Outro autor que eu conheci na faculdade (lá na primeira em meados de 2008), Langston Hughes é um dos maiores nomes da poesia negra norte-americana. Escrevendo no começo do século XX, ele retrata a realidade dos descendentes de escravizados em uma sociedade racista e segregatória.  Esse livro compila poemas escolhidos pelo próprio Hughes, um pouco antes de sua morte, e traz um panorama da sua carreira. Um autor ainda pouco conhecido e traduzido no Brasil, com uma obra cortante, bela e profunda, e que merece muito ser lida.

Detalhe Menor, Adania Shibli

Esse também foi indicação do Will, também recente. Com suas poucas 112 páginas, esse livro tem a densidade de muitas mais. Dividido em duas partes, conta histórias de duas mulheres separadas pelo intervalo de mais de cinquenta anos; uma, adolescente que sobrevive a um ataque israelense em uma aldeia árabe e acaba sendo abusada pelos seus captores e, a outra, uma mulher palestina que decide investigar mais detalhes dessa história. Profundo e inquietante, fala sobre territorialidade, segregação e pertencimento.

O Gene: uma história íntima, Siddhartha Mukherjee

 Sempre tem um pedacinho de mim querendo algo de não-ficção, seja um livro ou documentário. Li “O Imperador de Todos os Males” em 2017 e desde então “O Gene” estava na pilha. Entrelaçando o seu histórico familiar com a esquizofrenia e a evolução das pesquisas genéticas, de Mendel às tecnologias atuais, o autor consegue escrever uma obra-prima da literatura, além de nos deixar um pouco mais inteligentes (mesmo quem, como eu, tem familiaridade zero com termos científicos) e nos ajuda a entender a beleza e a magnitude do que é um ser humano. É denso, com muitas páginas, mas vale cada segundo.

Múltipla Escolha, Alejandro Zambra

 Em uma das nossas incursões à Amazon, achamos esse livro por um preço ótimo e decidimos comprar. Baseado num tipo de vestibular das universidades chilenas até meados dos anos 2000, o autor utiliza a ferramenta das questões de múltipla escolha para trilhar um caminho em meio aos conflitos e questões que certamente já passaram pelas nossas cabeças alguma vez. Vida e morte, amor, família, laços de afeto, tudo se concentra nessas questões que, assim como acontece na vida real, ficam mais complexos ao longo da jornada. Posso dizer sem medo de errar que foi a descoberta do ano.

Os Supridores, José Falero

Se um dia alguém me pedisse pra resumir o que eu penso da sociedade brasileira por meio de uma obra literária, eu escolheria essa. Eu li e gostei tanto que até usei em um trabalho pra matéria de Literatura Comparada. Dois amigos que trabalham em subempregos num supermercado da periferia de Porto Alegre, e que sonham em ficar ricos, ganhar dinheiro pra conseguir ter um conforto, fazer mais do que sobreviver (a duras penas, diga-se). E aí o resto é paulada atrás de paulada. O capitalismo é uma merda e esse livro é maravilhoso. A leitura flui demais, li em uma semana porque apenas não dá vontade de largar o livro de tão bom. Recomendo demais.

Cidade de Deus, Paulo Lins

Sabe aquela história do jornal que se espremer sai sangue? Esse livro também. Uma obra-prima da literatura contemporânea brasileira, “Cidade de Deus” é um livro que começa um pouco difícil, já que apresenta um universo enorme de personagens nas primeiras páginas, mas logo passa essa impressão e nos faz mergulhar nesse mundo de uma das maiores favelas do Rio de Janeiro. Baseado numa pesquisa acadêmica e na própria vivência do autor, o livro nos mostra um cotidiano de falta: de opções, de perspectiva, de alternativa. Pobreza e criminalidade caminham de mãos dadas, aqui como em muitas outras periferias do país. Pra mim, é quase como se “Cidade de Deus” e “Os Supridores” se complementassem de alguma forma. Foi uma felicidade ter lido os dois assim tão perto.

Unorthodox: the scandalous rejection of my hasidic roots, Deborah Feldman

Esse é outro que estava na minha lista, e no Kindle, há um tempo. Em 2020 assisti à minissérie da Netflix baseada nessa história, e desde então queria lê-lo; finalmente chegou o momento. Posso dizer que é um baita livro, e eu que tenho estudado bastante sobre cultura e literatura hebraicas achei que valeu demais. De certa forma, tendo sido criada em um ambiente religioso, consigo me identificar bastante com a protagonista e autora da obra e sua trajetória interna de descoberta de si mesma dentro de um sistema tão opressor e baseado no medo. Esse livro mexe em coisas profundas dentro de mim, e posso dizer que foi de certa forma uma leitura transformadora.

Essa lista não é exaustiva, até porque deixei algumas outras obras que também mereceriam fazer parte dela, como “Everything is Illuminated”, do Jonathan Safran Foer que é um livro incrível que eu reli, agora em inglês, e continua ressoando dentro de mim.

Toda leitura é transformadora, e eu não vejo a hora de ler cada vez mais coisas que me instigam, alimentam, divertem, fazem refletir e transformam; vem muita coisa boa em 2022!

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