Séries

Published on julho 8th, 2019 | by Raira

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Olhos que Condenam

Se você nunca ouviu falar de Ava DuVernay, a única coisa que tenho a dizer é: procure saber. Fiquei dez minutos tentando descrevê-la mas nada do que eu tente dizer vai conseguir abarcar a maravilhosidade dessa mulher. Tem até uma Barbie inspirada nela (!!!).

Ela dirigiu “Selma”, que é um dos filmes que mais amei na vida, e que ganhou vários Globos de Ouro e um Oscar de Melhor Música Original, por “Glory” (e olha, é. John Legend, é só o que tenho a dizer). Outro trabalho perfeito dessa mulher é “A Décima Terceira Emenda”, um documentário incrível sobre o sistema prisional norte-americano, que também foi indicado ao Oscar. E esses são só alguns de seus trabalhos. Sendo assim, quando estreou “Olhos que Condenam” na Netflix, apenas ignorei tudo que tinha na lista e comecei a assistir. E não foi fácil.

A série documental conta a história dos “Cinco do Central Park”, como ficaram conhecidos os garotos, hoje homens, condenados pelo estupro de uma corredora no Central Park em abril de 1989. A repercussão midiática do crime foi enorme, assim como a controversa relação entre a polícia e a promotoria; durante os julgamentos até o próprio Donald Trump foi à TV pedir pena de morte para esses meninos. Em 2002, doze anos depois da sentença, os cinco homens foram exonerados pelo Estado, após a confissão de um detento e a confirmação de seu DNA nos objetos apreendidos na cena do crime.

A série tem apenas quatro episódios, divididos basicamente em crime, julgamentos, vida durante e pós-cárcere dos condenados, e finalmente a verdade vindo à tona, muitos anos depois. É muito doloroso assistir, principalmente ao primeiro episódio; tive que dividi-lo em duas vezes porque ver, mesmo que de forma fictícia, a violência que esses garotos sofreram na mão dos policiais, os interrogatórios, o sofrimento deles e de suas famílias, foi demais pra mim.

A série desnuda o racismo estrutural norte-americano, mostrando como ninguém ali estava interessado em achar o verdadeiro culpado pelo crime. Mostra como funciona um sistema judiciário que não existe pra fazer justiça, mas sim pra massacrar aqueles da base da pirâmide. Um sistema racista que vive pra condenar só pelo olhar aqueles que nem precisam entrar numa corte, pois já nascem com a sentença estampada em sua pele, seu cabelo, sua classe. E tudo isso é apenas um espelho do que vivemos também aqui no Brasil.

É impressionante o trabalho técnico desses episódios, pra mim impecáveis. Do começo ao fim você se vê imerso nas vidas desses cinco garotos e de suas famílias, chora, ri, sente tristeza e raiva, e amor também. Ao final, senti vontade de abraçar esses homens e pedir desculpas pela humanidade. O trabalho dos atores e atrizes é incrível, de uma delicadeza magnífica. Já assisti muita coisa, quase nada comparado a essa série. Vale mais a pena do que qualquer outra coisa no catálogo de qualquer serviço de streaming atual. É um trabalho perfeito. Forte, dolorido e necessário.

Aguardando ansiosamente as indicações mais que merecidas pra essa obra de arte. Assistam. Apenas.

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About the Author

apaixonada por séries e livros, tem como objetivo de vida ser tão incrível quanto Liz Lemon e Leslie Knope, e acha que até já é um pouquinho. tem sorte de dividir a vida com outros seres tão maravilhosos quanto e ama cada momento com eles.



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