Posted on: 5 de setembro de 2020 Posted by: Lucas Alves Comments: 0

Em meio a uma pandemia, expectativas, adiamentos, polêmicas e novos rumos marcaram o caminho tortuoso que Mulan percorreu até finalmente chegar ao Disney+ na última sexta-feira (04/09). A história da guerreira chinesa, que se disfarça de homem para ir à guerra no lugar do velho e doente pai, já é bastante conhecida no mundo todo, principalmente por conta da animação lançada pela Disney em 1998. Amada por grande parte do público ocidental, o desenho ainda causa polêmica e mais de 20 anos depois, ainda não é bem visto por parte do público oriental, principalmente na China.

As primeiras impressões o live action tem divido tanto o público, quanto a crítica. A maior parte dos pontos negativos apontados são justamente as diferenças entre a animação de 1998 e a nova versão de 2020. Aos que irão assisti-lo esperando um remake, a decepção pode ser gigantesca. Existem certas semelhanças, porém as diferenças é que de fato chamarão mais atenção, principalmente dos que guardam uma memória afetiva muito forte do desenho. Particularmente, Mulan é um dos filmes mais importantes da minha vida, pois ele foi o primeiro filme que eu assisti no cinema. É a minha primeira lembrança desse ambiente que ao longos dos anos se tornou parte de quem eu sou hoje. Nostalgias à parte, para entender as mudanças, primeiro precisamos conhecer a lenda que deu origem a tudo isso.

As primeiras menções de Mulan são em poemas, datados entre os séculos IV e V, período em que o norte da China passava por diversas invasões de povos nômades. Para defender o seu território, diversas batalhas aconteceram sob o comando do Império durante a Dinastia Han. De fato, não há evidências de que Mulan realmente tenha existido, e ao longo de mais de mais de 1500 anos outras versões dos acontecimentos foram surgindo, porém sempre prevalecendo da mesma essência, a lenda se tornou importantíssima para a cultura chinesa e é motivo de muito orgulho por lá até hoje.

Uma das principais reclamações do público na nova versão, é a ausência de Mushu, o simpático dragão que acompanha Mulan em sua jornada. Vale lembrar que o mesmo Mushu, além de não existir na lenda que dá origem aos filmes, também é o principal motivo das reclamações do povo chinês no longa de animação. Na China, o dragão é uma figura sagrada e símbolo de força, poder e respeito. Inclusive na época do império, representava também a soberania do mesmo e de seus líderes. Usá-lo como alívio cômico não pegou bem com os chineses, por ser considerado extremamente desrespeitoso com a cultura deles.

Existem outros casos de “adaptações” que não foram bem vistas e esses erros não poderiam acontecer novamente. Ao assistir a nova versão de Mulan, é aconselhável deixar a memória afetiva de lado e ir de coração aberto ao novo. Sem dúvidas, a sua experiência será outra.

Mulan é sim um filme grandioso em vários aspectos, do orçamento milionário ao visual impecável, são inúmeros os acertos da diretora Niki Caro (de “Encantadora de Baleias” e “O Zoológico de Varsóvia”), as diversas cenas de ação são extremamente bem executadas, assim como os efeitos especiais e o equilíbrio disso com alguns momentos cômicos simples.Falha apenas ao entregar excelentes sequências de luta e batalhas de tirar o folêgo, porém sem o derramento de sequer uma gota de sangue. Obviamente isso não é culpa da diretora e sim do direcionamento de um “filme família”, onde o derramento de sangue elevaria a classificação indicativa. Essa ausência prejudica e tira toda a credibilidade do trabalho da direta em entregar grandes momentos de lutas e ação. O longa é um excelente exemplar de filmes que precisam ser vistos no cinema, como infelizmente isso não foi possível, mas chega a ser triste ver tanto potencial e tantas cenas pensadas para serem exibidas numa tela gigantesca e em tecnologias como o IMAX 3D, por exemplo, serem desperdiçadas em exibições domésticas. Por melhor que seja o seu televisor com tecnologia 4K, ainda não existe nenhuma tecnologia dentro de nossas casas que consigam competir com toda a experiência envolvida em assistir um blockbuster de 200 milhões de dólares numa boa sala cinema.

Os primeiro e segundo atos são ótimos, do desenvolvimento à execução. O elenco de início pode causar uma certa estranheza e desconforto no espectador que logo de cara busca por rostos conhecidos, de grandes produções hollywoodianas, mas durante o desenrolar dos acontecimentos entregam boas atuações de modo geral, nada impactantes ou memoráveis, mas ainda assim boas. O terceiro ato, que pela lógica deveria ser o mais emocionante entrega uma conclusão morna. Deixando um sentimento que ali falta algo, perceptível principalmente nas atuações de Jet Li no papel do Imperador e de Gong-Li, como a bruxa Xian Lang.  


Aliás, um dos pontos fracos de Mulan talvez seja justamente o seu roteiro. Escrito por Rick Jaffa, Amanda Silver, Elizabeth Martin e Laura Hynek, ele trás boas ideias e muito material novo, porém várias delas não são tão bem exploradas como deveriam. Uma delas é o “chi” uma espécie de “Força” (quando comparada com o universo Star Wars) que só os melhores guerreiros possuem, bem vista e encorajada a ser trabalhada quando presente nos homens e suprimida quando presente nas mulheres. Talvez até fosse de se esperar que alguns desses pontos ficassem “devendo” um algo a mais. Isso é bastante comum em roteiros desenvolvidos por mais do que uma ou duas pessoas.

Lucas Alves
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