Posted on: 14 de janeiro de 2021 Posted by: Will Comments: 0

Para quem era acostumado a ler no transporte público, ler em casa só não foi um desafio maior porque em 2019 eu já tinha desenvolvido alguma estratégia nesse campo.

Tenho feito o exercício de ler uma poesia e/ou um conto por dia a depender de outras demandas da vida. 2020 foi um ano de alguns calhamaços – que não entraram na seleção, haha – e de muitos dias em que não consegui ler nada.

Por outro lado, muitos dos meus melhores vieram de surpresa, pela participação em grupos de leituras, como o clube de livreiros da Todavia. Então, sem mais delongas, um pouquinho sobre os livros que mais tocaram o meu gélido coração capricorniano durante o ano do distanciamento e isolamento social. A ordem está mais para cronológica do que necessariamente afetiva.

Stoner – John Williams

Tinha comprado esse livro há tempos, numa promoção da Rádio Londres, mesmo sem saber muito do que se tratava com profundidade. E aí como ele foi um dos livros de janeiro do clube de leitura da Folha, resolvi passá-lo na frente para poder participar do grupo mediado pela maravilhosa Úrsula Passos. O desafio era fazer uma leitura conjunta com o “Complexo de Portnoy”, do Philip Roth, que já tinha lido há muitos anos (depois de Pornopopéia) e não tinha gostado muito. Úrsula enxerga uma curiosa relação entre os dois livros.

E foi pensando nessa misteriosa ligação que “Stoner” foi para mim uma das mais belas e gratas surpresas do ano e até quiçá da vida. Não sei se é a tradução, a escolha feliz da construção de cada frase que sempre resulta em uma sentença bonita, poética e melancólica – tudo isso junto – mas eu fiquei bastante emocionado com essa leitura.

O livro começa com a informação da morte do protagonista e a partir daí reconstitui sua vida marcada por muita resiliência e por algo que vou chamar de “fazer o melhor que se consegue com aquilo que se tem no momento”.

Sobre os Ossos dos Mortos – Olga Tokarczuk

“Sobre os Ossos” eu li também para participar de um clube, mas no caso era o da Todavia. Acho que me identifiquei demais com a protagonista, suas idiossincrasias, suas manias, bom humor e visões sobre astrologia. É um livro de mistério, acho, mais do que de suspense. Foi muito agradável e divertido de ler.

A Morte e o Meteoro – Joca Reiners Terron

O Joca é um autor que já estava na minha lista e na minha pilha, mas o primeiro que li dele foi este último que saiu pela Todavia e também a participação no clube foi o que me motivou. Comecei a leitura meio indisposto, confesso. Indígenas, apocalipse. Parecia algo bem distante do meu radar de interesses. Eu não sabia nem ler “kaajapukugi”, o nome da tribo que protagoniza a história. Não demorou para a resistência inicial ser vencida. Esse é um belíssimo romance no qual há uma lapidação de cada palavra em seu lugar e nada sobra ou falta. É tudo muito bom e instigante. É um livro curto, mas nem por isso menos potente.

O Peso do Pássaro Morto – Aline Bei

O que tenho a dizer sobre este livro de Aline Bei é que demorei demais para começar sua leitura. Muito elogiado por entendidos do meio literário nacional, sem falar no trabalho de divulgação da própria autora, bastante empenhada e ativa nas redes, sobretudo no Instagram. Ele trata de violência e é triste, mas ao mesmo tempo é lindo de tudo. E a escrita fragmentada na página faz com que ele pareça poesia, mas não se engane, nem se assuste. A “ousadia” na diagramação não representa prejuízo de entendimento e absorção da obra.

Aquele que É Digno de Ser Amado – Abdellah Taïa

Eu amei tanto esse livro que ainda hoje fico me perguntando como uma história em que um autor de origem árabe radicado na França consegue tanto falar comigo. Fiz texto sobre ele aqui.

Caderno de Memórias Coloniais – Isabela Figueiredo

Esse, além de ler para o clube de leitura, foi uma leitura compartilhada com a Raíra também. O que me pegou foi a escrita poética do texto de Isabela. O despudor para falar das memórias de infância, o vamos jogar a fuder, a vida em Moçambique e como tudo é costurado com delicadeza e bom humor apesar de relatar tragédias também.

Delírio do Poder – Marcia Tiburi

Em 2018, Marcia Tiburi saiu candidata a governadora do Rio de Janeiro. O livro traz um apanhado de ensaios curtos sobre essa experiência, o que a levou a topar essa empreitada e o que ela presenciou durante a candidatura. Investi na obra com a desculpa de que ela seria uma referência teórica no processo de montagem do documentário que filmamos em 2018 e fiquei muito feliz de o livro ter ultrapassado muito essa expectativa/desculpa esfarrapada. São textos gostosos e de fácil compreensão. Acredito que pensar no como estaríamos se o resultado das eleições tivesse sido outro pode ser fundamental para a construção de novas utopias políticas. E talvez esse livro seja importante por isso, destacar o mérito dos pequenos grandes gestos. A gente precisa ser capaz de sonhar outras possibilidades de existência. Mais gente devia ler.

Oh, Margem! Reinventa os Rios! – Cidinha da Silva

Eu vou dar uma roubada nesse, porque eu li a primeira edição, a da capa roxinha, desse livro. E justamente quando eu estava na busca pelo exemplar, fiquei sabendo da notícia do lançamento desta nova edição pela Editora Oficina Raquel que traz três crônicas e dois contos a mais além de um prefácio do Paulo Scott. Cidinha é uma das escritoras brasileiras que mais tenho gostado de ler ultimamente. Admiro demais sua inteligência, sensibilidade, capacidade de articulação, síntese e crítica certeira.

Assombrações – Domenico Starnone

Gostei muito de “Laços” quando li o parzinho recomendado “Laços” – “Dias de Abandono”, da Elena Ferrante, mas “Assombrações” me pegou pela história e relação entre avô e neto, por uma sensibilidade do masculino que acho um tanto difícil de encontrar na literatura às vezes. Há algo sobre o retorno ao lugar de infância, que é um dos temas do livro, onde tudo está diferente e a sua vivência é apenas lembrança, ou um resquício do que já foi. Todo essa volta às origens fala muito comigo. Por isso me conquistou.

Torto Arado – Itamar Vieira Junior

Esse eu não li exatamente para o clube, porque acabei lendo um pouquinho antes de ele ser escolhido para marcar o primeiro aniversário dos encontros. Mas além de ter sido tema de discussão, o clube teve influência porque ouso dizer que “Torto Arado” é o livro preferido de dez entre dez participantes. E não à toa. É uma história linda e única do jeito que é narrada e já na primeira página te prende com uma cena que chega a doer. Aliás algumas dores eu senti como se fosse em mim pelo jeito com que tudo é construído, assim como algum conforto e afeto também. Encontrei ecos distante de “O Tempo e o Vento” aqui. Um puta romance que fala muito de terra e formação de Brasil.

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