Li bastante coisas esse ano e aqui uma seleção com aquilo que mais me tocou ao longo desses doze meses. Nem tudo é recente, porque é impossível ler tudo que é lançado pelo mercado editorial. Mas também leitura é trajetória e para variar é mais importante descobrir o que mais agrada você. Então mais ou menos em ordem aí vai a minha lista dos melhores de 2019.

Diário de Bitita

Faz muitos anos que li Carolina Maria de Jesus pela primeira vez e ‘Quarto de Despejo’ está entre os mais importantes da minha vida. ‘Diário de Bitita’ tem o mesmo tipo de escrita cortante, de dúvidas e questionamentos sobre a estrutura racista da sociedade brasileira por um viés que parece ser simples, mas que é complexo. É um soco na boca do estômago. Super necessário. É emocionante, revoltante e faz pensar muito sobre nossos racismos cotidianos.

Manifesto Contrassexual

Ouvi falar sobre esse livro quando escrevi, em 2015, uma peça que falava sobre o medo do homem heterossexual médio em lidar com o seu cu. De lá para cá, o Paul Preciado esteve presente na bibliografia de alguns cursos sobre gênero, sexualidade e feminismo que eu fiz. Tá aqui porque é muito bom, porque me instigou muito e mudou a minha vida. Confesso que me perdi um tanto na parte em que ele dialoga com Derrida, faltou mais arcabouço teórico e filosófico da minha parte. No entanto, foi só depois desse livro que tomei coragem para comprar meu primeiro vibrador. E agora quero práticas de contrassexo na vida, porque do sexo assim mais convencional eu ando meio cheio.

Antes que Anoiteça

Eu sempre quis ler Reinaldo Arenas desde que um livreiro me indicou o autor há muitos e muitos anos na Livraria Cultura. Nesse ano fiz um dos meus clássicos post no Facebook perguntando o que meus amigos estão lendo e a Adelita respondeu que tava lendo este. Na mesma semana encontrei ‘Antes que Anoiteça’ vendendo por dez dilmas nessas banquinhas de encalhe da vida. Achei que era um sinal para comprar o livro e passar ele na frente dos outros e era. Rolou uma identificação imediata desde as primeiras páginas. Tudo é muito bom  e bem escrito na autobiografia do escritor cubano que foi perseguido pelo regime de Fidel Castro. Tem momentos singelos com memórias de infância e episódios excitantes de suas aventuras sexuais, passando pelas experiências dolorosas de suas prisões pelo regime.

Eu, Travesti

‘Eu, Travesti’ foi a melhor grata surpresa deste ano. Não que eu não quisesse ler. Queria e muito. Mas pedi assim no ‘vai que dá’ para o universo (aka a Shirley da Record) e rolou. Foi outro que passei na frente na pilha e puta que pariu. Luisa Marilac começa o livro contando que no momento de sua concepção um rato passou perto de onde seu pai e sua mãe estavam transando. O susto que sua mãe levou acabou causando o orgasmo de seu pai e assim foi que Luisa veio ao mundo. Daí em diante, seguem-se as memórias de infância, os traumas, abusos, o início na prostituição e toda uma história que vai muito além do meme pelo qual Luisa se tornou conhecida. É o relato de uma história muito dura, mas também muito bonita e que conta com preciosos momentos de reflexão.

Especial

O livro que inspirou a série da Netflix é muito melhor. Não é papo de quem prefere livro. Juro. É só porque além de ser possível conhecer com mais detalhes a história do Ryan, essa obra com jeito de livrinho teen esquecível e dispensável esconde algumas reflexões muito boas sobre os modos de vida que andamos levando nestes tempos em que estamos todos hiperconetados. Acho que ele dá uma exagerada no quanto leva a sério as definições de millenial – termo que eu, particularmente não gosto -, mas há uma boa análise sobre as diferenças comportamentais da nossa geração para a dos nossos pais. O modo como lidamos com frustrações, felicidade, dinheiro, consumo, empregos, drogas, amizades, afetos e muito mais está ali exposto de maneira engraçada e inteligente. O humor, pelo menos para mim, nem sempre funciona e em algumas partes achei a tradução meio grosseira ou um tanto quanto hétera. Ainda assim é um baita livro.

Carvão Animal

Passei a acompanhar a Ana Paula Maia depois que ela recebeu uma crítica ruim na Folha, já tem alguns anos. Meu primeiro dela foi o “De Gados e Homens” que amei e que ficou em mim por muito tempo. Daí eu tava em dúvida entre esse e “Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos”, que venhamos e convenhamos tem um título mais forte, digamos assim. Mas a escolha de “Carvão” foi bastante acertada. Primeiro porque o livro compõe e encerra uma trilogia, apesar de a história se passar dez anos antes dos acontecimentos de “Rinhas”. Segundo que o aparente “pouco apelo” do nome se justifica com toda a estrutura da trama, que acompanha um homem que trabalha incinerando mortos em um crematório e um bombeiro que não sente dor. A rudeza nas quais os personagens se encontram é um dos pontos fortes do romance.

A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver

Como não querer ler esse livro? A escritora espanhola Rosa Montero concebeu esta pérola depois que seu marido morreu devido a um câncer. Aqui ela tem como referência os diários de Marie Curie. A cientista – que foi a primeira mulher a ganhar o Nobel e a primeira a ser laureada duas vezes – também passou por um processo de luto quando o marido dela foi morto atropelado por uma carruagem (!). Pode parecer pesado, mas não é. A narrativa flui, é muito gostosinha e ganha respiros com fotografias publicadas entre trechos. É um registro íntimo, sensível e delicado sobre a forma como lidamos com o luto e a morte, mas também como lidamos com a vida, como amamos e construímos relações. É um livro bem feminista e desmascara com elegância os mecanismos que o machismo tem para se instaurar na vida das pessoas de maneira sutil e quase imperceptível a ponto de ser tão naturalizado.

Um Teto Todo Seu

Um clássico da Virginia Woolf que nasceu a partir de uma palestra em que ela foi convidada a ministrar em uma universidade sobre o tema “mulheres e literatura”. Aqui, ela percorre caminhos pouco óbvios ou pelo menos pouco óbvios para a época em que foi escrito. Reflete não só sobre como as mulheres são retratadas na literatura, mas também quais são as condições necessárias para que as mulheres escrevam e possam se retratar. Me pegou em muitos pontos, tanto sobre aspectos ou relações que eu nunca tinha pensado a respeito quanto aos meus objetivos de escrita e o que é que eu tô fazendo aqui?

O Fim de Eddy

Acho que gostei mais de ‘Fim de Eddy’ porque o ‘Canção de Ninar’, lançado mais ou menos na mesma época, foi uma grande decepção. Haha. Falando sério, eu gostei sim, mas fiquei com um pouco de preguiça e com a sensação de que é um livro que eu poderia ter escrito, sabe? Bullying homofóbico sofrido no colégio? Querido eu podia receber um mestrado por isso. Mas né, temos um mercado editorial viciado ou acomodado com o que vem de fora. Acho que me pegou um pouco as relações da família de Eddy, o pai dele, a mãe não muito afetuosa. Engraçado que pelas descrições no livro sobre a cidadezinha operária em que o autor-personagem narra eu lia o livro e lembrava muito de Billy Eliot. Espero que a Planeta lance logo o ‘História da Violência’.

A Glória e Seu Cortejo de Horrores

Foi um dos primeiros livros no ano e confesso que assim de bate e pronto não lembro grandes detalhes da obra como um todo, mas o livro tem passagens absolutamente brilhantes sobre o fazer artístico no Brasil. Ele acompanha a história de um ator meio decadente que fez muito sucesso nos anos 60-70-80, mas que agora precisa lidar com o fiasco de uma peça teatral que só gerou despesas e problemas. E aí para saldar as dívidas e resolver a vida num país entre o pré-Biroliro e a nova era, ele deixa os holofotes da principal emissora do país para trabalhos na emissora evangélica concorrente. Cheio de momentos de humor, elegância e ironia fina. Ler a ‘Glória e Seu Cortejo’ fez eu me arrepender de não ter lido o ‘Fim’ até então e até agora. Quem sabe no ano que vem.

As Coisas

Fiquei muito feliz quando anunciaram que o livro de contos vencedor do prêmio Sesc trazia histórias de relacionamentos de homens gays. É sempre bom ler coisas LGBT, se reconhecer e pensar nas potências poéticas dessas representações ainda tão perseguidas e tão à margem. ‘As Coisas’ é um livro muito bom; tem uns contos que se sobressaem, como o do dildo por exemplo (alá eu sendo a bicha fálica), mas tem outros que são singelos e delicados como andar de mãos dadas na rua sem o perigo de sofrer um ataque homofóbico. Dá uma aquecidinha no coração e é uma ótima estreia literária para alguém tão novo. E o Tobias é uma graça. Inclusive meu telefone é (11) 99417…..

Bula para uma Vida Inadequada

Quando eu vi o título desse livro a primeira coisa que eu pensei foi: “Você tá falando comigo?”. Porque se você não sente nem um pouquinho que sua vida anda meio errada, alguma coisa muito errada você tá fazendo da sua vida. Em todo caso, ‘Bula’ foi um dos meus favoritos do ano. Veja, eu conhecia o Livrada!, pelo desafio do Facebook, mas não conhecia o Yuri. E confesso que dei aquela apaixonada na foto da orelha. Depois ele falou bem do Pondé no instagram e eu desapaixonei. #Vida. Mas enfim. O ‘Bula’ tem apresentação ou prefácio ou do Rodrigo Casarin, do Página Cinco do Uol. Na orelha, algumas das referências estéticas me chamaram a atenção. Alguma coisa que já li e outras que ainda não, mas tenho interesse. Deu match. As crônicas são leves, me botaram encantado, surpreso. Me identifiquei com alguns textos, ri de outros. Alguns me deixaram mais pensativo, outros mais dolorido. É o tipo de livro que é uma ótima companhia.

Ideias para Adiar o Fim do Mundo

Onde eu tava esse tempo todo na vida que não conhecia o Krenak e ele um dos caras pelos quais devemos agradecer pela Constituição de 1988, sabe? Pois bem. ‘Ideias para adiar o fim do mundo’. Que textos fortes. Curtos, mas fortes. Podia ser mais barato. Porque para adiar o fim do mundo só freando bruscamente o ritmo do capitalismo. É complexo e simples ao mesmo tempo e muito sábio. Traz uma perspectiva que é bom de não perder. De que somos natureza e a natureza também somos nós e o rio é nosso avô. Talvez soe meio hippie, meio louco, meio maluco beleza, mas antes ser tudo isso do que ser um Faria Limer meritocrático. Esse livro depois de ‘Bacurau’ me deixou com vontade de viver no mato regando minhas plantas pelado.

Pedaço de Mim

O João Silvério Trevisan é um dos escritores mais importantes do Brasil ainda que ele não seja colunista da Folha ou do Globo e a crítica literária coloque-o só na caixa LGBT. Um paradoxo, isso, né? Porque em termos de referencial ou nortes identitários é ótimo saber que ali pode-se achar uma boa identificação. Por outro lado, a literatura de escritoras e escritores negros, mulheres, LGBT, como Trevisan ou outros tantos nesta lista mencionados, é tão literatura quanto toda aquela produzida pelo cânone homem branco hétero. Aqui, uma série de artigos e ensaios que revelam a inteligência e a erudição e mostram o porquê de ele ser um dos escritores mais importantes do país. Este ano me propus a ler tudo de sua obra que ainda não tinha lido e simplesmente amei ‘Pedaço de Mim’.

Ana em Veneza

Eu tentei ler esse livro em 2008 e não rolou. Ainda assim, a leitura dele ficou em mim por muito tempo e foi o que despertou meu interesse pela Alemanha. Daí não deixou de ser curioso começar suas páginas depois que comecei a cursar aulas de alemão. É um dos romances mais importantes da obra do Trevisan, mas não é dos meus preferidos. Aqui eu fui  pego mais pelo cérebro do que pelo coração, mas as partes coração também são fortíssimas e às vezes confesso que me pego pensando nelas com carinho. É que há mais de uma forma na estrutura narrativa do livro e em alguns momentos confesso que foi difícil captar ou entender bem as mudanças estilísticas. Há mais de um narrador, por exemplo. Ao término da leitura fiquei com a sensação muito clara que mesmo as partes mais difíceis de acessar fazem sentido na composição do livro como um todo. A partir da história da família do escritor Thomas Mann – mais especificamente sua mãe Julia -, João Silvério apresenta a história de Ana, uma mulher negra que havia sido escrava no Brasil e foi levada para morar na Alemanha quando a família para lá se mudou. A partir dessa figura para lá de estrangeira, João lança um olhar fortíssimo sobre o Brasil, o que é ser brasileiro e tudo aquilo que nos constitui.

O Mundo que Habita em Nós

Neste apagar de luzes do ano, ‘O Mundo que Habita em Nós’ foi um livro que me escolheu. Gosto da Liliane Prata desde a época de Caprichos das amigas lidas escondidas. E me lembro com muito gosto de uma entrevista que ela deu para mim e para a Diana quando ainda estávamos nos primeiros anos da faculdade de jornalismo. Fora isso, acho que faltam quatro livros dela que ainda não li, contando o ‘Ela Queria Amar, Mas Estava Armada’. Esta é a primeira incursão da autora na literatura de não-ficção e este é um livro que funciona quase como um complemento de terapia. A obra propõe uma série de questões sobre como se conectar com o “si mesmo”, quem são os “eus” que habitam em você e o quanto a nossa subjetividade é também muitas vezes composta de elementos externos dos quais mal nos damos conta, mas que constituem certezas arraigadas das quais às vezes temos dificuldades de largar.

A Morte de Ivan Ilitch

Antigos colegas de trabalho ficam sabendo pelo jornal sobre a morte de Ivan Ilitch, e aí vamos conhecendo a vida comum desse personagem. Os perrengues do casamento, o trabalho chato com burocracias jurídicas. Até agora não tinha gostado muito de clássicos da literatura russa que tinha lido na vida (uns Dostoievski em sua fase inicial), mas esse me pegou. A forma como é fluido esse livro me impressionou e surpreendeu muito. É simples, gostoso e muito bem escrito. E tem umas passagens ótimas sobre o que é a vida.

Will

Tem mais livros que amigos, mas tem os melhores amigos do mundo e troca qualquer série para estar com eles sempre que possível

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