Posted on: 11 de janeiro de 2021 Posted by: Raira Comments: 0

No total foram 32 livros lidos no ano, alguns escolhidos por mim e outros pela vida (conhecida como professores) e separo aqui dez leituras para compartilhar. Foi muito difícil acostumar a ler em casa, já que as quatro horas passadas em transporte público diariamente eram os momentos em que eu mais lia, e criar uma rotina de parar e falar “agora vou ler” demorou bastante, mas finalmente consegui e valeu muito a pena. Demorei um tempo pra conseguir separar sobre os que queria falar porque teve muita coisa boa, mas acho que essa lista representa bem um resumo do que foi esse ano. Como sempre faço segui uma ordem cronológica e não de importância.

1. This Will Only Hurt a Little (Busy Philipps)

Eu amo um bom livro de celebridades de Hollywood, e gosto muito da Busy Philipps. Peguei como uma alternativa mais leve de leitura, já que vinha seguindo a coleção da ditadura do Elio Gaspari e foi um acerto. É um livro autobiográfico, onde ela conta coisas da sua infância e adolescência, o difícil relacionamento com a família e também sua trajetória dentro da indústria do cinema e da TV; acho ela bem honesta e engraçada. Já queria ler há um tempo e terminei ele rapidinho.

2. A Ditadura Encurralada (Elio Gaspari)

Penúltimo livro da série, A Ditadura Encurralada narra a trajetória dos generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva até sua chegada no centro do poder ditatorial, suas relações não só políticas mas pessoais, passa pela derrota sofrida pelo Exército nas eleições de 1974 e a conspiração que pretendia derrubar Geisel da presidência pela ala descontente com as “aberturas” permitidas por ele. É quando a gente começa a ter uma esperança de que algo pode mudar, mesmo que ainda tenha chão.

3. Cinzas do Norte (Milton Hatoum)

Uma obra-prima da literatura brasileira, esse foi o livro que me salvou da profunda falta de vontade de fazer qualquer coisa e ler diariamente nem que fosse um pouquinho. É um livro curtinho, mas de uma profundidade imensa. Narra a trajetória de dois amigos, Lavo e Mundo, desde a infância à vida adulta; não só dos meninos como de suas famílias, que se entrelaçam em relações complicadas do passado, e também de Manaus, sua cidade natal, desde os anos 50 passando pela ditadura militar que devasta o estado. Lindo, triste e profundamente brasileiro.

4. Caderno de Memórias Coloniais (Isabela Figueiredo)

Nascida em Moçambique, filha de um eletricista português, Isabela escreve um livro que procura reconciliar sua história pessoal com a da ex-colônia. Uma escrita clara e contundente sobre a vida sob o regime português, o tratamento racista dado aos nativos, e a sua própria relação e de sua família com o país. Quase como um acerto de contas com o passado, e principalmente com seu pai, Caderno é um livro que não busca maquiar a feiura da colonização, mas que parte das memórias fragmentadas de uma menina para trazer luz a um assunto espinhoso para aqueles que, como ela, fazem parte dessa história. Foi uma leitura compartilhada com o Will, uma forma de estarmos conectados durante o isolamento, e uma experiência riquíssima.

5. Tévye, o leiteiro (Scholem Aleikhem)

Eu amo musicais. E amo literatura hebraica e judaica. Conheci mais a fundo “Um Violinista no Telhado” em 2019, quando descobri que estava rolando uma temporada do musical em iídiche e comecei a seguir a página do espetáculo, ouvi o cd milhares de vezes e descobri que a peça era baseada em um livro, Tévye, o leiteiro. Na festa do livro desse mesmo ano tinha colocado o livro na minha lista, mas acabou que não peguei por questões de orçamento. Eis que em 2020 pego uma matéria em que entre as leituras estava justamente ele, Tévye. Com bibliotecas fechadas, fui atrás de uma versão digital e só achei em inglês; até que ganhei do Will a versão em português, o que foi uma coisa incrível porque a tradução é muito melhor. O livro conta a história de Tévye, sua mulher e sete filhas,que vivem em uma aldeia judaica russa no início do século XIX e que são confrontados com os ventos da mudança que estão começando a soprar com o surgimento da Era Moderna, que traz consigo o fim desse mundo tradicional que se mantinha praticamente o mesmo desde a Idade Média. É um livro incrível! Scholem Aleikhem foi um dos últimos escritores em língua iídiche e um dos melhores. Não é uma literatura que chega pra gente com muita facilidade, mas vale a pena e é muito feliz pra mim poder conhecer essa preciosidade.

6. Contos Completos (Caio Fernando Abreu)

Caio é um presente. Fizemos essa leitura conjunta, eu e Will, um conto por dia. Fazia tempo que queríamos fazê-lo e foi uma delícia compartilhar todo dia nossos sentimentos e ideias depois da leitura e finalmente mergulhar nessa obra tão maravilhosa; saiu até uma treta por causa de um conto (nada que não tenha sido resolvido já <3). Já tinha lido umas coletâneas da Nova Fronteira que eram por década, há alguns anos, então já conhecia alguns contos, mas lê-los em ordem cronológica é toda uma outra experiência. Todo mundo devia ler Caio.

7.Jó (Joseph Roth)

A história de Mendel Singer e sua família, que vivem numa aldeia russa no começo do século XX, também é a história do fim de uma era, de migração e sobre raízes. Mendel é um homem muito religioso, que vive pra trabalhar e cuidar da família, além de cumprir rigorosamente as tradições; apesar das condições escassas que tem sua família, ele é um homem realizado. Até que começa a guerra e tudo muda. Um de seus filhos se alista no exército russo e o outro migra para os Estados Unidos, até que o restante da família também segue seus passos, deixando para trás o filho mais novo, pois ele era deficiente e a América precisava braços saudáveis e fortes para o trabalho. Nas entrelinhas do texto há uma crítica ao modo de vida capitalista ao qual Mendel nunca se acostuma, e que acaba sendo a ruína de sua família. Joseph Roth com sua escrita sensível, nos faz acompanhar com avidez o destino desse homem, que apesar de triste, também nos fala de esperança. Uma obra-prima, com certeza.

8. Paisagens da Memória (Ruth Klüger)

Escrito por Ruth Klüger nos anos 90, esse livro faz parte do gênero “literatura de testemunho” sobre o qual estudei no último semestre. Sobrevivente de Auschwitz, ela traz um relato dos horrores dos campos de extermínio nazistas sob o ponto de vista de uma mulher que esteve lá e sobreviveu. Apesar de um estilo de escrita de uma ótica distanciada, quase como a de um observador à distância, ela busca tratar os personagens da obra não dentro de uma dicotomia bons x maus, mas como seres humanos com nuances, sejam eles prisioneiros ou não. Ruth também nos lembra que a vitória dos aliados sobre os nazistas não significou o fim das ideias pregadas por eles, algo que infelizmente nós, em 2021, sabemos muito bem que é verdade.

9. Noite (Elie Wiesel)

Continuando na temática do testemunho temos um livro completamente diferente de todos que já tinha lido. Elie Wiesel escreve com tanto sentimento que é impossível ficar indiferente ao que ele conta. Ganhador do Prêmio Nobel da Paz, ele também é um sobrevivente do genocídio e, ao contrário de Ruth Kluger ou mesmo Primo Levi, sua escrita não busca se distanciar dos episódios narrados, mas sim nos coloca dentro deles; em seu livro ele expressa a dimensão mais profunda de dor e de revolta por essa experiência compartilhada com tantos, muitos dos quais não sobreviveram para contá-la. Se eu pudesse indicar apenas um livro sobre o assunto, com certeza seria esse. Infelizmente não tem uma tradução decente e/ou facilmente encontrável, mas tem o ebook em inglês pra download super fácil. Inclusive, o discurso que ele fez ao receber o Nobel é uma das coisas mais incríveis que já vi na vida. Tem aqui.

10. A Cena Interior: Fatos

Um menino de cinco anos que vai passear no parque no exato momento em que a polícia alemã leva sua família presa. Esse garoto era Marcel Cohen, e nessa obra belíssima ele tenta fazer um resgate de cada um dos membros de sua família que foram para os campos nazistas e não retornaram. Um sobrevivente por e pelo acaso, que reconstrói lembranças de pessoas, das quais ele tem apenas uma vaga recordação, por meio de objetos deixados por elas, depoimentos de conhecidos e amigos. Um trabalho de preencher lacunas, tão simples e tão intenso. A tradução, por conta de um dos professores mais queridos da Letras, é um trabalho incrível também.

Os livros já me ajudaram e me salvaram muitas vezes ao longo da vida, e com certeza em 2020 foram imprescindíveis pra manter meus pés no chão ou me fazer viajar para outros lugares e tempos, nem sempre tão agradáveis, mas sempre com aprendizados que levarei pra vida. Cada um desses, e muitos outros que não estão listados, guardam um lugar especial no meu coração. Livros trazem novas perspectivas, nos abrem novos caminhos, nos divertem, fazem rir e chorar. Que venham os próximos!

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