Posted on: 22 de janeiro de 2020 Posted by: Lucas Alves Comments: 0

(Reino Unido/USA, 2019) ☆☆☆☆

Cinebiografias e musicais são dois gêneros que por muitas vezes andam juntos em Hollywood. Tem quem ame, tem quem odeie. São inúmeros casos de obras bem recebidas pelo público e pela crítica, outros apesar de premiados, deixam a desejar e causam revolta entre os fãs. Na minha concepção, as cinebiografias precisam ser acima de tudo uma homenagem ao artista ou à personalidade retratada, é um trabalho que exige muita pesquisa e requer muito cuidado com a “licença poética” a ser usada para retratar a vida de alguém.

Judy Garland (1922-1969), grande estrela da Era de Ouro do cinema, assim como muitos colegas de profissão, além de extremamente talentosa era problemática a mesma altura. Foi criança prodígio do teatro vaudeville à uma máquina de fazer dinheiro aos estúdios de Hollywood. Numa carreira cheia de altos e baixos, Judy sempre enfrentou problemas com autoestima, pois apesar do estrondoso sucesso, sempre foi considerada um patinho feio na indústria. Ainda adolescente, por pressão dos estúdios e de seus executivos, já fazia uso de moderadores de apetite e outros coquetéis de medicamentos que diziam ter como objetivo aumentar a produtividade da jovem, logo tornou-se dependente.

O roteiro do longa é adaptado da peça “Rainbow’s End” (Fim do Arco-íris). Renée Zellweger surge como Judy em meados de 1968, com a carreira em baixa, cheia de dívidas, praticamente sem ter onde morar e fazendo um ou outro show pra tentar sobreviver com os dois filhos pequenos, Judy vive em conflito, seja com ela mesma ou com o ex-marido. Até receber um convite para estrelar uma série de shows em um clube de Londres, oportunidade única para tentar alavancar a carreira, mas que a deixaria afastada dos filhos por longos meses. 

Mesmo com bons coadjuvantes, como Finn Wittrock interpretando Mickey Deans, quinto e último marido de Judy e Jessie Buckley como Rosalyn, assistente pessoal dela durante os shows de Londres, tudo gira em torno de Renée. Ela domina como ninguém e talvez em paralelo com a sua própria carreira, transforma seus medos, traumas e inseguranças no de Judy e vice-versa.

Um belo trabalho de caracterização rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Cabelo e Maquiagem à equipe e uma indicação de Melhor Atriz à Renée, que ao interpretar Judy, faz uso dos trejeitos e maneirismos, mas sempre na medida certa, sem parecer caricato. Outra boa escolha do diretor foi colocá-la para interpretar as músicas de verdade e não dublando. Renée já havia mostrado em Chicago que também é uma atriz que canta. E mesmo não sendo seu maior talento, não decepciona e sim emociona, desde o primeiro número musical com “By Myself” ao último com o emocionante grand finale com “Over the Rainbow”.

Apesar de não se aprofundar em outros momentos da vida de Judy, além da temporada de Londres e flashbacks durante a conturbada adolescência em meio aos estúdios da MGM, Rupert Goold presta uma belíssima homenagem e reverência a uma das mais emblemáticas atrizes de Hollywood e mostra como os bastidores da fama e do estrelato podem e são sombrios e sórdidos desde sempre. Não esconde seus defeitos e seus inúmeros problemas pessoais, mas também não faz da polêmica o único motivo para chamar a atenção do espectador. E faz um belo trabalho também apresentando Judy Garland para a atual e quem sabe, futuras gerações.

Lucas Alves
Últimos posts por Lucas Alves (exibir todos)

Leave a Comment

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.