Posted on: 30 de julho de 2020 Posted by: Raira Comments: 0

Sempre que se fala de uma série que fez muito sucesso parece que só existem duas opções: ou você ama ou odeia. Com Friends não poderia ser diferente.

Durante esse momento estranhíssimo a tudo o que já vivemos, no meio de uma pandemia, venho compartilhar alguns pensamentos que tive sobre a série durante a centésima vez que assisti a algum episódio.

Eu tenho um hábito/costume de ligar a televisão quando chego em casa de algum lugar, naquele momento de colocar pijama, organizar as coisas pro próximo dia, dar uma olhada nas redes sociais pré-sono. E aí desde que não tenho mais tv a cabo, e a programação da aberta não me apetece, incluí Friends nessa rotina. Sendo assim, não é algo que eu exatamente assisto, mas fica fazendo aquele barulhinho de fundo enquanto concluo minhas tarefas. Agora, na quarentena, sem poder sair, tenho usado o mesmo método pra quando não tô muito a fim de pensar e fico nos joguinhos de celular.

Tudo isso pra dizer que eu não consigo pensar nessa série como algo que precisa estar dentro de algum dos dois extremos de amor e ódio, mas que transita um pouco entre os dois. Tem gente que diz que Friends é a melhor sitcom, que nunca houve nem haverá algo tão genial, etc. E eu discordo. Em termos de inovação, por exemplo, ela vem surfando na onda de Seinfeld nessa ideia de ter um grupo de amigos nas suas idas e vindas profissionais e amorosas, claro que num recorte de idade um pouco menor e que provavelmente alcança um outro tipo de público do que a primeira, o que também se reflete na escolha de um elenco bem jovem, padrão, que cumpre todos os requisitos pra virarem os queridinhos da américa.

A falta de diversidade é algo que se evidencia na série, que ao longo de seus dez anos teve apenas uma personagem secundária negra, que dizem ter sido contratada exatamente pra tentar amenizar a questão. As personagens lésbicas que aparecem desde a primeira temporada são duas mulheres brancas padrão, que muitas vezes são o motivo da piada. A graça que também é construída em cima da sexualidade do pai do Chandler, que pelo que entendemos hoje poderia ser uma mulher trans, também é um fator complicador aí. A gordofobia escancarada em toda a construção da Monica ter sido gorda no passado é extremamente desconfortável, porque só reforça e normaliza a ideia de que ser gordo é motivo de vergonha e de piadas que passam longe de ser inofensivas.

E eu poderia ficar aqui citando por muitas linhas toda a problemática da série. Que sim, tem um recorte temporal que podemos levar em consideração, mas também não acho que temos que passar esse pano dizendo que “era coisa da época”, porque se chegamos aonde chegamos é porque todos esses estereótipos foram reforçados socialmente e só quem é uma minoria sabe o estrago que fez a falta de representatividade em todas as mídias, e como isso nos afetou pessoalmente. Dito isso, hoje em dia o que eu faço é pular todos os episódios de Monica gorda porque é uma narrativa que me faz mal e eu não preciso disso. 

Preciso fazer um parêntese aqui pra dizer que nunca tive tv a cabo durante infância/adolescência e que tive um contato tardio com a série (a partir de 2011 mais ou menos).

um momento icônico

Eu realmente gosto de muitos elementos e até hoje há coisas que me fazem rir. E é o ponto a que eu queria chegar. Inclusive nessa quarentena, reassistir tem sido um exercício de achar furos e observar detalhes até antes não vistos (como o Chandler estar jogando Crash no PS1 em um episódio). Outra coisa que fica bem evidente são as similaridades de roteiro que acontecem entre pelo menos mais três séries: Seinfeld, Will & Grace e How I Met Your Mother. São plots muito parecidos, que valem a referência. Meu sonho é conseguir achar todas elas e classifica-las pra postar aqui; talvez no futuro role um post sobre os furos e errinhos de continuidade que achei.

Em um tempo de coisas muito loucas e incertezas, Friends é pra mim uma série-conforto. Eu deixo ali passando e vou organizar a vida pro dia seguinte, tomar um chazinho, e de vez em quando dou uma olhada pra tv. Mas também entendo não gostar, acho que tem muito conteúdo mais diverso e interessante de ser assistido no momento atual. Nessa era de fanbases, é bom entender que nem tudo tem que ser (acho que nem deve) a melhor coisa do mundo nem a pior. Ser mediano já tá de bom tamanho. É importante também manter um olhar crítico pras coisas e não só se deixar levar pros extremos sem pensar. Dá pra gostar e apontar erros. Até porque que eu quero nessa vida é sossego, como diria o Tim Maia.

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