Posted on: 1 de julho de 2021 Posted by: Raira Comments: 0

Há um ano, mais ou menos, escrevi um texto sobre a sitcom mais amada (ou odiada) de 9 entre 10 millenials, Friends.

Nessa época já rolava a história de que teria um episódio especial de reencontro, mas até então não havia muitos detalhes porque as gravações foram adiadas pela pandemia. E aí que finalmente, em abril de 2021 foi gravado o especial. Estreou dia 27 de maio na HBO Max gringa, e no Brasil (legalmente) em 29 de junho.

Desde que a era dos revivals e reboots começou, o que mais se perguntava era se um dia haveria a possibilidade de uma versão 2021 de Friends, o que sempre foi negado veementemente por todos os intérpretes do grupo e também por criadores e produtores.

Mas, meus amigos, o que o dinheiro não fizer em Hollywood ninguém faz, e o grupo de amigos aceitou se reunir uma última vez no famoso Stage 24 do lote da Warner em Los Angeles. A primeira coisa que, na verdade, foi a minha última visão, é que todos eles entraram como produtores-executivos, o que é uma jogada incrivelmente esperta do primeiro elenco a negociar salário junto e a receber a pequena quantia de 1 milhão de dólares por episódio. Ai Raíra, que chato você falando de dinheiro. Parece incômodo, eu sei, eu falar disso já no começo do meu texto, mas acho um detalhe muito importante dessa reunião.

A resposta à pergunta “gostou?” é “sim e não”. Eu tenho muitas críticas à forma como foi construída a série, como comentei no texto anterior, ao mesmo tempo que tenho um apego emocional vindo do momento de vida em que eu estava quando assisti pela primeira vez à série. É um misto de sentimentos, porque afinal de contas, sou humana (e pisciana).

Esse episódio em questão me parece um extra de algo que não aconteceu. Tipo o “Avante” da Marvel, que mostra os bastidores das gravações das séries e entrevistas com criadores e intérpretes, etc.

Tem coisas muito boas e tem coisas terrivelmente ruins (sim, James Corden, estou falando de você). Tudo deles chegando ao set, revendo os cenários exatamente iguais aos originas e se reencontrando ali depois de 17 anos do finale, é muito bom. A leitura de cenas marcantes é sensacional. Eu amo table reads e acho que todas as séries deviam liberar esse conteúdo pra gente porque é sensacional; é ali que você vê se aquelas pessoas funcionam juntas. Eles assistindo aos erros de gravação e se deliciando, rindo e chorando juntos, conversando sobre os momentos que compartilharam juntos, também é ótimo.

O resto é completamente desnecessário. E chato. Desde 1994, ano de estreia da série, aquele elenco deve ter respondido às mesmas perguntas dezenas de vezes. Todo aquele momento no sofá, com uma entrevista conduzida por um dos caras mais forçados do mundo, dá até uma vergonha alheia.

Estamos em 2021, em meio a uma pandemia global, embora nos Estados Unidos a Covid já seja quase parte do passado. E aquele momento “somos todos muito felizes e nos amamos muito, embora não nos falemos diariamente” é de uma extrema frivolidade. A gente sabe que pelo menos uma daquelas seis pessoas lida com problemas gravíssimos de abuso de substâncias desde a juventude; a gente sabe que a maioria deles não fez nada muito relevante desde o fim da série. E a gente também sabe que alimentar essa nostalgia é bom pro ego e pro bolso de todos eles ali. E por isso ninguém levanta um assunto relevante.

Ninguém fala, por exemplo, sobre os momentos espinhosos. Quando perguntados qual a parte mais chata, a resposta vem de uma pessoa apenas, e é a mais idiota possível: o macaco. Pode-se argumentar que eles não estavam ali pra isso, e eu até concordo, mas tudo aquilo é extremamente irrelevante. Sim, porque todas aquelas perguntas já foram feitas, e respondidas. A única “novidade” foi a revelação de que Jennifer Anniston e David Schwimmer tinham um crush recíproco, mas nunca se pegaram (ah, tá) pelo bem da convivência harmoniosa.

O reencontro com intérpretes de personagens marcantes, como os pais da Monica e do Ross, a Janice, etc. foi legal, mas ninguém se importa tanto com os coadjuvantes pra eles terem mais do que três minutos de interação. É até cômico. Entrevista com as pessoas mais aleatórias possíveis, de Malala a David Beckham, completamente dispensável. Desfile com Cara Delevigne, Cindy Crawford e Justin Bieber, dispensável. Smelly Cat com Lady Gaga, eu não sei se fiquei com mais vergonha alheia por ela ou por Lisa Kudrow.

É curioso ver, pelas entrevistas com os criadores, que um homem gay que, à frente de seu tempo, já era casado em 1994, não pensou em um plot que incluísse uma diversidade sexual, e quando feito resultou no desastre do pai do Chandler. Bom o momento descobrir como foi feito o casting com os atores. A desculpa de não quererem mexer nos “finais felizes” pra escrever um revival, me soa mais como um medo de críticas e de furar essa bolha de proteção pra lidar com a vida real e com os problemas que a série original tinha: falta de diversidade, gordofobia, homofobia, etc. Séries mais progressistas, como “Will & Grace” e “The L Word” conseguiram se reinventar e adaptar, no caso da segunda se repaginar quase que completamente, e trazer os personagens de volta muito melhores do que saíram, “Fuller House” tornou-se quase um spin-off de “Full House” e, apesar de ter se perdido um pouco nas temporadas finais, também foi muito bem-sucedida.

Possibilidades haviam, mas acho que no caso de Friends o que paga melhor é a nostalgia.

Últimos posts por Raira (exibir todos)

Leave a Comment

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.