Posted on: 6 de maio de 2020 Posted by: Fernanda Correia Comments: 0

Muito provavelmente você deve ter ouvido falar do movimento #MeToo que ficou conhecido assim mesmo, como hashtag. Mas caso você não faça a menor ideia do que se trata, uma breve recapitulação: encorajadas por uma série de reportagens do The New York Times, diversas mulheres começaram a expor no Twitter relatos de assédios e abusos sexuais que sofreram. Tudo sob a hashtag #MeToo. 

Essas reportagens estão reunidas no livro Ela disse (Jodi Kantor & Megan Twohey, Companhia das Letras, 2019).

Vencedoras do prêmio Pulitzer, não é muito difícil fazer a relação das duas jornalistas com Carl Bernstein e Bob Woodward, cujas reportagens sobre o caso Watergate foram peça fundamental para a renúncia do ex-presidente dos Estados Unidos Richard Nixon.

Escrito no mesmo ritmo dos textos jornalísticos, o livro relata os bastidores de como as reportagens foram feitas, especialmente a primeira e mais bombástica. Desde a primeira pista de possíveis denúncias, passando por avisos de que outros veículos já haviam começado investigações sem concluí-las, chegando finalmente ao movimento que balançou Hollywood.

Na manhã seguinte, Megan recebeu uma mensagem de texto da mulher que tinha saído da empresa “por razões morais”. Dizia na mensagem que Weinstein havia ligado três vezes naquela manhã, desconfiado de que ela era uma das fontes.

“Estou com medo”, escreveu a jovem.

O livro tem, de forma geral, diversos pontos muito importantes, o que dificulta a escolha de um único detalhe. As autoras deixam claro que o cenário no qual as denúncias chegaram a elas, com diversas mulheres alcançando cada vez mais posições de poder, foi essencial para que elas fossem sequer autorizadas a seguirem com as investigações. Ainda mais importante: que sua editora fosse mulher e tivesse passado por diversos percalços para alcançar sua posição na redação.

Harvey Weinstein, o “alvo” de seus textos, tem pouco importância na narrativa. Ele paira como uma sombra ao longo de todo o texto, sendo a ênfase nos relatos de suas vítimas e nos bastidores da produção do texto. Isso acontece também porque apesar de retratarem situações específicas e lidarem com um assediador específico, não é difícil encontrar em lembranças próprias ou em relatos de outras mulheres equivalentes daquilo que está sendo relatado.

Harvey Weinstein acabou condenado à prisão por assédio sexual

A exposição do jornalismo bem feito talvez seja mais importante do que o relato dos assédios e a exposição de como o mundo — sendo a indústria do entretenimento mais reconhecidamente do que os outros — aceita a situação com normalidade, ou parte de como as coisas funcionam, o comportamento predatório de homens em posição de poder.

Assim como em Todos os homens do presidente, vemos os bastidores da redação de um dos maiores jornais do mundo. As duas jornalistas têm a história pronta nas mãos, mas não podem publicar porque precisam de fontes sólidas que confirmem os relatos e aceitem a exposição. É preciso conversar com essas mulheres traumatizadas com simpatia, mas sem intimidade, assegurando que a vida delas não vai piorar e que elas não vão mudar de vítimas a vilãs. 

Também são essenciais uma editora que acompanhe todo o processo e entre em meio às negociações para garantir a integridade do jornal e das repórteres. Uma equipe de advogados que vão garantir que o jornalismo possa ser feito. Dar espaço para o acusado se defender, mas sem atacar as próprias vítimas ou utilizar o espaço como panfleto. 

Gwyneth Paltrow foi uma das fontes essenciais para as reportagens

Com isso ganha destaque o relato do tempo para a produção das reportagens, assim como a possibilidade de dedicação quase exclusiva ao tema, falar diretamente com as fontes, poder insistir, viajar para encontrar os entrevistados e poder ir além da mera especulação inicial. Jornalismo bem feito custa tempo e dinheiro.

Em tempos de fake news, quando muitas pessoas têm dificuldade de lidar com jornalismo de verdade, ou seja, aquele que não repete o senso comum, que não corrobora pontos de vista pré-estabelecidos, que é fruto de pesquisa, investigação, apuração e pleno domínio do assunto retratado. No final o fazer jornalístico que permeia o relato da produção das reportagens se torna tão essencial quanto o próprio conteúdo revelado. 

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