Séries

Published on janeiro 10th, 2019 | by Will

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Eastsiders

Quando estreou, lá em 2014, alguém fez um daqueles textos dizendo que ‘Looking’ era a série que precisávamos. Eu assisti à primeira temporada, que pretendo rever em breve, para poder assistir à segunda e ao filme que também foi lançado. Amei o que vi da série, mas ‘Eastsiders’ é um passo além. ‘Eastsiders’ é bem mais do que o que precisamos. É a série necessária para os tempos que vivemos.

Daí naquela infinita ronda pelo catálogo da Netflix, há cerca de um ano descobri ‘Eastsiders’, mas só estava disponível a partir da terceira temporada. Recusei a assistir assim, tentei encontrá-la para baixar, mas vocês sabem como isso está dispendioso esses tempos.

Eis que em algum momento então, as duas primeiras temporadas ficaram disponíveis. O que me chamou muito a atenção, me fez começar e o que fez com que eu garrasse um amor nessa série é que ela é curta e tem poucos episódios. A primeira temporada tem 9 com uma média de 15 minutos mais ou menos. Depois ela vai para um padrão de 6 de 25.

Ela é ideal para quem não consegue ver muita coisa. E é leve e engraçada sem ser escrachada, ao mesmo tempo em que é muito profunda. Ou pelo menos, muito profunda dentro do que se propõe.

A série começou como um projeto para a internet. Os dois primeiros episódios fizeram sucesso e pelo que parece foi adquirida pela Logo TV, e passou por alguns serviços de streaming.

A série foi realizada por meio de financiamento coletivo do KickStarter

A série acompanha um casal que está em vias de terminar. No dia do apocalipse Maia, Cal descobre que seu namorado Thom o está traindo. Em uma estrutura não linear e quase cinematográfica acompanhamos momentos antes e depois desse ponto de partida. Uns dias para frente, uns dias para trás e assim vai.

O input é que Thom trai Cal com Jeremy. Cal é fotógrafo, Thom é escritor, Jeremy é marceneiro. Nenhum deles vive exatamente do que faz. Eles têm boletos, aluguel e despesas médicas para pagar. Não há muito glamour na vida deles. Eles são meio fodidos, meio dependentes de dinheiro dos pais, ou no caso, da mãe meio superprotetora de Cal.

Claro que ser fodido nos Estados Unidos é bem diferente de ser fodido na América Latina, ou mais especificamente no Brasil – eles estão sem grana mas estão sempre bebendo seus bons vinhos e fazendo comentários sobre serem alcoólatras (viradinha de olho aqui). Apesar disso a série é bem honesta ao abordar questões de privilégios de seus personagens. E ainda que ela seja bem branca, há espaço dentro do pouco tempo de tela para a presença de outras discussões da pauta da diversidade.

Até relacionamentos héteros são discutidos

Rolam discussão, términos. Nada muito melodramático, mas bem gay drama. Só que esse drama é bem calcado no mundo real. Thom escreve sobre sua vida sexual e seus desejos dissidentes. Cal tem um trabalho fotográfico de retratos de boys. Em algum momento Cal fica com Jeremy. Thom e Jeremy terminam, Thom volta para Cal e eles reatam e experimentam uma relação não monogâmica ou com a inclusão de terceiros ou mais elementos.

A série tem uns enquadramentos que eu gosto muito, que acontecem quando os personagens estão na cama conversando depois ou antes ou durante o sexo. Aliás, conversas são um dos pilares da série. Ela é toda construída em cima dos diálogos. Muitas das coisas que os personagens falam que viveram nós não vemos. Em termos de estrutura há alguns saltos temporais importantes. Até a metade da segunda temporada, a data em que os eventos acontecem é a primeira coisa que se vê na tela. Depois, isso é abandonado, o que mostra aprendizado e evolução em termos de linguagem.

É uma boa sacada do roteiro do Kit Williamson, o ator que interpreta o Cal e também dirige a série. O recurso ajuda a construir uma identidade narrativa ao mesmo tempo que barateia custos de produção.

O elenco já está filmando a quarta e última temporada

Vi um texto falando que ‘Eastsiders’ era sobre poligamia. E é, mas também não é. Acho um tanto cafona o termo e todos os clichês associados. Tem umas coisas sobre possibilidades e desafios de se relacionar e discutir vida e desejos que para mim falam muito mais.

Isso porque para todo esse textão eu tô focando no casal gay não monogâmico protagonista da série. Há outros personagens, que dentro de suas experiências dramáticas discutem modos e modos de se relacionarem.

Para resumir e finalizar, eu diria que ‘Eastsiders’ é uma série sobre relacionamentos em um mundo sem perspectivas no contexto do avanço do neoliberalismo e colapso do capitalismo. Para uma série tão curtinha, não é pouca coisa.

Há poucos personagens negros na série

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Tem mais livros que amigos, mas tem os melhores amigos do mundo e troca qualquer série para estar com eles sempre que possível



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