Posted on: 26 de março de 2020 Posted by: Will Comments: 0

Ou quando um livro escolhe a gente.

Como em Harry Potter, que a varinha escolhe o bruxo.

Veja. Eu fiquei sabendo da existência desse livro quando fiz um curso ano passado sobre diagramação/projeto gráfico com a Gabriela e o Paulo do Bloco Gráfico no Sesc Consolação.

Este foi um dos títulos que eles levaram de referência de trabalho já realizado e desde então ficou no meu radar. Primeiro, porque é da querida editora Nós, que tem publicado autores brasileiros contemporâneos, vivos, jovens e isso por si só merece louvores.

Segundo que olha este título. “Aquele que é Digno de Ser Amado”. Só uma pessoa sem alma e coração consegue ficar indiferente a um título tão instigante como este. Todos os poros do meu corpo ficaram ouriçados de curiosidade diante deste livrinho. Quem é aquele que é digno de ser amado e por quê, afinal de contas?

E em terceiro lugar porque a orelha já diz logo na primeira linha que o marroquino Abdellah Taïa foi o primeiro escritor árabe a se assumir ~homossexual~ publicamente, em 2006. E daí, né. Eu apenas deixei o o Sesc naquele dia com a sensação de que eu precisava ler este livro.

O escritor franco-marroquino Abdellah Taïa

Corta para um pós-Carnaval 2020 emocionalmente pesado, eu querendo ler uma coisa curta, rápida. E desde dezembro que “Aquele…” tava na estante. É agora, eu pensei. Mas como eu disse. Foi o livro que me escolheu.

Eu às vezes chamo coisas fortes e necessárias de “porrada”, “soco”, “voadora”. Preciso expandir o meu vocabulário, porque este livrinho aparentemente inofensivo não é nada disso. Ele é forte, mas não é só isso. Ele é cru, talvez cruel, mas é de uma beleza também singular.

“Aquele…” é um romance espitolar (e eu amo essa palavra que lembra pistola, mas se refere a carta). Sendo a primeira epístola a de Ahmed – um gay, marroquino que vive na França já na casa de seus 40 anos – para sua mãe, que já morreu.

Aqui um certo complexo edipiano, aquele negócio de botar a culpa nos pais, mais especificamente na mãe. Dá uma certa raivinha, umas justificativas meio tronchas para comportamentos que ele mesmo admite ser babaca com outras pessoas, mas também vai além disso, conseguindo o feito de gerar identificação.

Pelo menos para mim chegou a ser inspirador, no sentido de dar ânimo de trabalhar em coisas que eu já vinha ruminando.

A segunda carta é Ahmed quem recebe, ou pelo menos é a ele que ela é destinada. E vem de Vincent, um cara com quem Ahmed se envolve por uma noite. E às vezes é isso. Uma noite basta para desencadear torrentes de sentimentos que afloram.

O que mais gosto neste capítulo é que ele dá uma boa traduzida no quanto são fugidios os relacionamentos homoeróticos masculinos. Por destoar do padrão heteronormativo, por precisar não ser facilmente tangenciável para que possa vir a ser. Via de regra o encontro entre dois homens é dotado de um conjunto próprio de linguagem não verbal já codificadas pelo próprio instinto de sobrevivência.

Ou aquela velha história de um envolvimento de horas ser mais significativo ou proporcionar mergulhos internos mais profundos do que relações que duram anos.

E aqui foi onde me identifiquei. No cara que se apaixona pelo cara que some no dia seguinte.

Capa de “Aquele que é Digno de Ser Amado”

A terceira carta é do Ahmed, para Emmanuel, o francês com quem Ahmed foi casado por dez anos. E aqui há primeiras vivências do desejo homoerótico, conflitos identitários, uma relação que se desgasta não só pelo tempo, mas por suas características também de colonialismo.

Uma série de várias reflexões podem surgir daí. Aqui surgiram.

E tem também a última carta, de um amigo de Ahmed, que é citado em alguns momentos das cartas anteriores e que não deixa de ser um belo desfecho ou um belo ponto de partida.

Porque também tem isso. As cartas seguem uma ordem cronológica invertida. A primeira é de agosto de 2015, a segunda é de julho de 2010, a terceira é de julho de 2005 e a quarta é de maio de 1990.

Então ao se chegar ao final têm-se a linha do tempo da história, que faz com que o livro fique ecoando ainda dentro de você depois que você o fecha.

Baita leitura de um livro que passou quase despercebido por aqui e de um escritor pouco ou quase nada conhecido no Brasil. Dá vontade de ler mais coisas dele.

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