Séries

Published on julho 26th, 2018 | by Fernanda Correia

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13 Reasons Why – Season 2

Aguardando os porquês de terem feito uma segunda temporada.

Quando estreou, 13 Reasons Why chegou com um misto de polêmica e “não podemos mais ignorar o assunto”. Para quem não acompanhou, a série adapta um livro infantojuvenil de mesmo nome (Os 13 porquês, Jay Asher, Editora Ática) e narra a história de uma garota, Hanna, que deixa treze fitas gravadas, cada qual dedicada a um única pessoa, senda cada uma delas um porquê que culminou em seu suicídio.

Os temas tratados são extremamente atuais e urgentes: bullying, pressão escolar, sexualidade, abuso, estupro etc. Eu estou entre o grupo de pessoas que achou a primeira temporada razoável principalmente por tratar estes temas sem pudor, mas errou a mão ao não se responsabilizar por possíveis efeitos em quem assistia. A principal crítica é de não oferecer um suporte, ou no mínimo um alerta de gatilho, para o que o espectador encontraria.

O sucesso, principalmente entre os adolescentes, fez com que a Netflix produzisse uma nova temporada. Eu assisti com a pergunta em mente: como eles vão continuar uma história se a principal personagem, que justifica a história, se matou ao final? Obviamente os efeitos dessa morte seriam abordados. Terminei a segunda temporada com a pergunta: quem foi o maluco que autorizou isso?

Pela parte do serviço de streaming, as críticas à primeira temporada foram contornadas. Todo episódio apresenta um aviso sobre possíveis efeitos psicológicos que a narrativa possa causar, além de apresentar um site no qual a pessoa encontra ajuda e resposta para suas dúvidas. Este aviso, apesar de repetido ao começo de cada episódio, não pode ser pulado como ocorre com resumos e vinhetas de abertura.

Casa arrumada por esse lado, uma grande bagunça no resto. Em primeiro lugar, como manter Hannah na história se ela está morta? A solução, completamente bizarra, é colocar Clay, o protagonista que ouve as fitas juntamente com o espectador, vendo o “fantasma” de Hannah e questionando tudo o que aconteceu. Se a ideia é chamar atenção para problemas psicológicos na adolescência, ninguém percebe um garoto falando sozinho e irritadiço? Ele sequer disfarça que está tendo alucinações, tendo ataques de raiva e gritando, chamando atenção de outros. 

Cada episódio é o depoimento de um porquê no tribunal que está julgando o caso da família de Hannah processando a escola, que não se atentou à depressão e ao bullying. A mãe, que foi abandonada pelo pai, enfrenta o julgamento sozinha, com seu advogado, enquanto a escola tem uma advogada, no famoso estilo “bitch”, aquela que conquista absolutamente tudo não importam as consequências. Não há a menor simpatia da mulher com a mãe. E o advogado parece trabalhar corrigindo erros ao invés de montar uma defesa. Aqui entre uma parte minimamente boa, questionando a falta de percepção e diálogo dentro de casa também, mas feito no tribunal soa como uma justificativa para a escola lavar as mãos e culpar completamente a fragilizada família.

Ao invés de fitas, agora temos polaroids (olhos revirando)

Ao invés de fitas, agora temos polaroids (olhos revirando)

O astro do futebol que estuprou Hannah e mais uma garota na primeira temporada ganha ares de psicopata, jogando na cara da própria mãe que estuprou sim as garotas (com a famosa justificativa “eu vi no olhar delas que elas queriam”). A mãe se assusta, diz que ele envergonha a família, mas eles seguem defendendo o sujeito e tentando fazê-lo passar uma imagem de bom moço, criando um romance absurdo entre ele e Hannah.

Desde o primeiro episódio percebe-se que será abordado outro grande problema das escolas norte americanas: atiradores. O problema é que esta narrativa é construída criando um suspense, fazendo o espectador aguardar o tiroteio sempre no próximo episódio. Além de toda, absolutamente toda, oportunidade de colocar o futuro atirador com uma arma em suas mãos e seu sentimento de impotência são aproveitados. Ele também não disfarça, levando amigos (e pais) para extravasar atirando.

É quase de se esperar alguém interromper a narrativa e gritar: Hey! Se você ainda não entendeu, esse cara vai atirar nos colegas. (Eu queria atirar em quem escreveu esse roteiro.) Quando essa promessa se concretiza e o atirador se prepara para invadir o baile de formatura para fazer o massacre no último episódio, Clay sai sozinho, sem apoio profissional ou de um adulto, conversa, desarma e ajuda o sujeito a fugir. (Eu me perguntei se era prévia de uma nova série da Marvel já que ele agiu como um super-herói) Mais uma vez, irresponsabilidade com aqueles que estão assistindo e não estão em condições estáveis, além de sugerir que se você conhece o cara, tudo bem negociar com um atirador, certamente ele vai ser razoável.

Em uma das poucas boas cenas, ao depor sobre o estupro, Jessica fala abertamente sobre tudo o que ocorreu e, a cada frase, é substituída por outra mulher da série que também relata abusos e assédios. Uma cena muito bonita e importante, largada no meio de um episódio, um dos últimos, sem efeito algum para a narrativa. Ela simplesmente está lá. Principalmente porque, alerta de SPOILER, o estuprador é inocentado. 

No fim das contas um filme de duas horas mostrando o que aconteceu em geral teria sido mais proveitoso e teria aberto debates de formas mais conscientes e responsáveis. Ou então nada ter sido feito e deixado o debate ocorrer por si só. Tudo o que conseguiram foi estragar as coisas boas que apresentaram na primeira temporada.

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About the Author

Tem mais séries e livros para ver e ler do que tempo hábil. Sonha em encontrar o Doctor só para usar a Tardis e zerar a sua pilha. Encontrou o sentindo da vida quando assinou o Netflix. 80% dos seus posts são pistola.



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